A César o que é de César

Por Olavo Dutra

Sábado, 15 de maio de 2021

De como o secretário de Turismo do Pará, André Dias, atribui ao governo de Jader Barbalho a assinatura do primeiro contrato de cessão e os projetos iniciais para a construção da atual Estação das Docas. Ou, como atribuir “paternidade” de bem cultural a um governante que mais que ninguém criticava a obra de Paulo Chaves bancada pelo governo Almir Gabriel tanchando-a, por exemplo, de “Estação das Dondocas”.
Dizem que a história é escrita pelos vencedores – e eu não duvido. Contudo, seja porque já não estão entre os vivos, seja porque entre os vivos há mais “vivos” do que a história suporta, duvido que a versão dada pelo secretário de Turismo do Pará prospere como verdadeira à luz de fatos muito simples apontados nos últimos anos pela mídia. É de André Dias, reportando-se aos 21 anos de funcionamento da Estação das Docas, este comentário: “Primeiramente, é uma felicidade grande poder comemorar 21 anos da inauguração da Estação das Docas, um projeto que começou no governo Jader Barbalho (…), momento em que foi assinado o primeiro contrato de cessão da área e se iniciaram os projetos para a construção desse marco para o nosso turismo (…)”.

Nada a ver. Primeiro, como festejar 21 anos de um espaço público tão referenciado de Belém sem sequer citar os principais responsáveis pela construção – o ex-governador Almir  Gabriel e o arquiteto e ex-secretário de Cultura Paulo Chaves, ambos falecidos, que devem estar se revirado no túmulo com tamanha infâmia e usurpação?

Para rememorar, a obra começou no final do primeiro governo do Almir Gabriel e foi concluída em meados do segundo, portanto, longe do segundo governo Jader Barbalho, que terminou em março de 1994, quando assumiu o vice-governador Carlos Santos. A concessão da área foi viabilizada por Almir Gabriel, através do então ministro das Comunicações, Sergio Mota, amigo pessoal e companheiro de partido do governador, já que ambos eram históricos do PSDB.  A concepção, o projeto arquitetônico e a condução da obra foram de responsabilidade do arquiteto Paulo Chaves e equipe da Secretaria de Cultura. Para ser fiel à história, no governo JB, com o André Dias presidente da Paratur, houve concurso para escolha de projeto para aproveitar a área portuária com a criação de centro de convenções. Parecia jogo de cartas marcadas, conforme repercussão na mídia na época.  Houve questionamentos, a confusão foi criada e o tal concurso acabou anulado. Não houve projeto definido, muito menos área cedida.  O que seria “possibilidade” de criação de um centro de convenções naquele virou a Estação das Docas no governo Almir Gabriel. Logo que a Estação das Docas foi inaugurada, políticos ligados ao então PMDB dos Barbalhos e seus parceiros do PT iniciaram uma campanha através de veículos de comunicação aliados tentando desqualificar o espaço, inclusive com insistentes notas de jornais chamando-o de “Estação das Dondocas”, em referência ao que supunham ser – ou pretendiam fazer crer – um espaço criado somente para ricos.
Agora vem o secretário de Turismo, filho do ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Estado André Dias, que testemunhou todo o trabalho – até porque era do PSDB -, tentar apagar a verdade, dando um salto na história que, na verdade, é mais um atentado contra a memória dos mortos e à inteligência dos que ainda vivem. Tenha santa paciência. Mas, se a ideia foi criar polêmica, que seja. Vamos ao bom debate, enquanto o governador do Pará tenta criar uma obra para chamar de sua e, pelo lado bom, reservar seu lugar na história.

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