Ima Célia Guimarães Vieira​

Desmatamento dita prazo de validade da floresta amazônica

Divulgação

Pesquisadora titular do Museu Emílio Goeldi, doutora em Ecologia pela University of Stirling, Escócia, e membro de comissões de programas científicos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, Ima Vieira (foto) traça um retrato sombrio sobre o futuro da região, que pode chegar ao “ponto sem retorno” entre 2035 e 2050.

  • Dados do Inpe apontam que a área desmatada na região foi de 10 mil quilômetros quadrados de agosto de 2019 a julho deste ano, mas o Instituto não faz um comparativo com o desmatamento no restante do País e muito menos com o desmatamento mundial. Por quê?

Os recursos do orçamento do Inpe são direcionados apenas ao monitoramento do desmatamento da Amazônia e do Cerrado. O sistema de monitoramento do desmatamento da floresta amazônica (Prodes) é muito bem estabelecido, desde 1988, e exemplo para outros países. O Centro Regional da Amazônia, com sede em Belém, tem feito treinamento para pesquisadores de vários países da América do Sul. O sistema de Monitoramento do Desmatamento no Cerrado Brasileiro por Satélite é mais recente, mas também muito importante para direcionar políticas de proteção ambiental.
Apenas em 2019 é que o INPE finalmente conseguiu recursos (que vão até 2022) para mapear o desmatamento nos outros quatro biomas brasileiros – Pantanal, Mata Atlântica, Caatinga e Pampa. O financiamento é do Fundo Amazônia, e esse projeto foi afetado pelos problemas com este Fundo no Brasil. Não sei o que vai acontecer após 2022.
O Inpe coloca os dados em plataformas públicas e qualquer pessoa pode acessar e baixar os dados e fazer a análise que quiser. Pelo que sei, o Inpe deve fazer relatórios e encaminhá-los aos órgãos de fiscalização e ao governo federal. Comparativos e análises com esses dados, feitos por pesquisadores e jornalistas, têm sido bastante divulgados na imprensa.

  • Esses números divulgados pelo Inpe incluem as áreas autorizadas oficialmente pelo Código Florestal ou se referem apenas a desmatamentos novos e ilegais?

Os dados são anuais. As imagens de satélite não distinguem o que é legal ou ilegal. Os órgãos de controle e fiscalização é que devem fazer esse tipo de análise. Alguns cientistas têm cruzado os dados do CAR, de áreas protegidas e de terras devolutas, por exemplo, com os polígonos de desmatamento que o Inpe divulga todos os anos, e têm demonstrado que muito do que se desmata na Amazônia é ilegal e criminoso.

  • Sabe-se que os órgãos de fiscalização têm sido vítimas de esvaziamento, com cortes brutais de orçamento – de R$ 53 milhões para R$ 33 milhões em dois anos. A quem caberia reverter esse quadro?

Ao governo federal, no caso do Ibama e ICMBio. O orçamento (e pessoal) desses órgãos tem diminuído muito e isso é um dos problemas que leva a um descontrole de desmatamento e queimadas na Amazônia. Já foi demonstrado cientificamente que comando e controle são fundamentais para diminuir o desmatamento na Amazônia.

  • Dizem que o agricultor brasileiro é o que menos causa danos ao meio ambiente em função dos custos dos insumos, geralmente importados. Então, como responsabilizar esse segmento e os índios pelo desmatamento?

O fogo tem sido usado tradicionalmente na agricultura na Amazônia para o manejo e preparo do solo, pois é um método barato. Os produtores familiares e indígenas usam o fogo para queimar vegetação para fazer roças, mas essas áreas são muito pequenas – entre um a quatro hectares de terra. Não tem como eles serem responsabilizados por essa grande extensão de queimadas na região. Nos últimos 40 anos, 20% da floresta amazônica foi devastada, enquanto menos de 2% das florestas originais dentro de Terras Indígenas foram perdidas.

  • Nesse ritmo de desmatamento anunciado pelo Inpe, como se poderia desenhar o futuro da floresta amazônica e suas implicações no clima nos próximos dez anos?

Estudos recentes publicados na revista “Science” mostram que nas últimas décadas o desmatamento, as mudanças climáticas e o uso indiscriminado do fogo começaram a impactar o ciclo hidrológico da região. A combinação desses três fatores indica que o novo ponto de inflexão, a partir do qual ecossistemas na Amazônia podem deixar de ser floresta, seria atingido se o desmatamento alcançar entre 20% e 25% da floresta original. Essa situação é denominada como tipping point, ou “ponto do não retorno”, a partir do qual as próprias alterações climáticas ocasionadas pela perda florestal tornarão inviáveis a sua recuperação e podem transformar-se em savanas, o chamado processo de savanização. Se nada for feito, esse ponto sem retorno pode ocorrer entre 2035 e 2050. O cenário preocupa!

  • O que mais ameaça a floresta amazônica: o avanço da agricultura, a indústria madeireira ou a pata do boi?

A agricultura e a pecuária são responsáveis pelo desmatamento – a pecuária por mais de 60%. A atividade madeireira predatória causa degradação florestal – a floresta fica em pé, mas empobrecida em espécies e com baixa biomassa. São dois processos diferentes e ambos levam à perda de biodiversidade e de serviços ecossistêmicos providos pela vegetação nativa. Já desmatamos cerca de 20% da Amazônia e some-se a isso mais 20%30% de florestas degradadas. Não precisamos mais derrubar uma árvore para produzir alimentos no Brasil.

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