Belém, sábado, 10 e domingo, 11 de abril de 2021

Para além da menção à obra do escritor cubano Guilhermo Cabrera Infante – “Três tristes tigres” -, o título acima é – como Cabrera o fez – um jogo de oralidade. Três tristes textos são textos ricos por sua natureza, mas tristes pelas circunstâncias impostas ao mundo, e em especial ao Brasil e ao Pará, pela pandemia do novo coronavírus. Não são, claro, esses textos – nem pretendem sê-lo -, obra de arte, mas obra real e crua dos que os assinam: os jornalistas Paulo Silber, Walter Pinto e este que vos escreve, Olavo Dutra. Boa leitura.

Tristes trópicos: os índios na pandemia

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Walter Pinto

Esta é uma história triste e de longa duração, iniciada com a chegada dos primeiros navegadores europeus à costa das terras ao sul do Equador. Há mais de cinco séculos o contato do invasor com as populações indígenas tem sido a causa da enorme diminuição dessa população, um genocídio que transformou grandes nações em nichos rarefeitos no interior das florestas. 

Neste momento as nações indígenas rarefeitas estão sofrendo drasticamente com a disseminação da Covid-19 na floresta. O homem branco, no entanto, continua atuando como vetor da contaminação e das mortes acumuladas nas aldeias. Um estudo da Universidade de Genebra publicado em agosto passado embasa essa certeza: na Amazônia, o desmatamento e o garimpo ilegal abriram caminho para Covid-19 entre os índios. Essas atividades, para as quais o governo anda fazendo vista grossa, respondem por 22% dos casos de Covid-19. 

De acordo com a Associação dos Povos Indígenas do Brasil, a Covid afetou 163 povos. Dados atualizados apontam para 51.958 casos de infecção. Os mortos somam 1.301. Além do desmatamento e do garimpo, a ação de muitos missionários evangélicos pregando fake News nas aldeias contribui para o agravamento do quadro ao indispor os indígenas à vacinação. Neste caso, o próprio presidente da República tem também sua parcela de culpa, ao estimular quase diariamente o não uso de máscara, a aglomeração e negar os efetivos positivos da vacina.

Em entrevista que concedeu à revista Beira do Rio, a índia, mestra e doutoranda em biomedicina pela UFPA, Eliene Rodrigues Putira Sacuena, teceu criticas ao discurso negacionista do presidente, destacando sua influência junto à população indígena. Disse que o discurso afeta diretamente a cosmologia indígena. “Em nossa cultura, os povos indígenas acreditam que os pajés se transformam em animais das florestas e dos rios. É algo que faz parte da nossa cosmologia. Então, não é difícil para eles acreditarem que podemos mesmo virar jacaré como efeito da vacinação”. 

Putira Sacuena conta que quando a pandemia chegou ao Brasil já sabia que as consequências seriam trágicas nas aldeias devido à precariedade da estrutura de saúde.  “Por causa da vida em coletividade, tínhamos noção de que a contaminação atingiria muito os povos indígenas”. Depois de muitas lutas, as entidades de defesa dos índios conseguiram incluí-los entre os grupos prioritários na campanha de vacinação. Mas essa prioridade não se estendeu a todos. Ela só considera os aldeados e deixa de fora os que estão nas cidades, entre os quais muitos que estudam, como a própria índia Putira Sacuena, que continua índia pertencente à etnia baré, mesmo com a graduação, o mestrado e o doutoramento que faz na UFPA. Assim como ela, há muitos outros estudantes índios em universidades públicas.  Para a burocracia federal da área de saúde, eles não existem, não são prioritários. Tornaram-se invisíveis.

Tristes travessuras: quando até o humor fica mais triste

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Paulo Silber

 -Janja entra no escritório de Lula com o celular na mão:

– Prê, é pra você…

– Pra mim?! – estranha o ex-presidente.

Lula coloca no chão a cadelinha Resistência, que acabara de participar com ele de uma reunião online, e resmunga:

– Porra, eu nem tenho celular. Por que me ligam? Eu já falei pro Lulinha. Esse negócio de celular só dá pobrema!

– Luís Inácio! – ralha Janja.

– Perdão, perdão. Pro-ble-ma, problema. Desculpa: é o hábito.

Só então Lula segura o aparelho e espia o número antes de atender. “Brasília? Será que é o Fachin?”, pensa.

– Alô!

– É o Lula?

– Sim. Quem tá falando?

– É a tua mãe! Hahahaha!

Mais de mil quilômetros longe de São Bernardo, do outro lado da linha, Bolsonaro desliga na cara de Lula e cai na gargalhada junto com os filhos. Eles festejam a inauguração da mansão de R4 6 mi, em Brasília, com um churrasco à beira da piscina. Eduardo ri tanto com o trote que se mija todo.

– Que porra é essa, 03! Tu virou gayzinho agora? Hoje tá mijando na calça, amanhã tá fazendo golden shower, pô! Prefiro filho morto do que filho viado!

Carlos salva o irmão, interrompendo o esporro:

– Liga de novo, pai! Liga de novo! A gente grava e  espalha o áudio, dizendo que o Lula atendeu lá na mansão nova, na Bahia… – propõe 02, elaborando a fake news.

Bolsonaro liga. Quem atende agora é a companheira Janja.

– Escuta aqui, seja lá quem for. É melhor parar com essa palhaçada ou eu…

– Sai fora aê, dona. Eu não discuto com mulher. Mulher feia não merece nem estupro, hahahaha. Não tem macho nessa casa?

– Meu Deus, Lula! – reage Janja, chocada.

O ex-presidente pega o celular.

– Seu filho da puta! Eu vou…

– Que mané vai o quê, vagabundo? Vai mandar os petistas me pegarem? Tudo bandido. Bandido bom é bandido morto hahaha…

Os filhos do presidente rolam no chão. A gargalhada é ouvida em todo condomínio.

– Quem manda aqui sou eu, vagabundo. E eu mando é bala, talkei?

É quando cai a ficha de Lula. Aquele discurso de ódio, a voz arrastada, a risada debochada.

– Puta que pariu! Bolsonaro?!!!

Resistência começa a latir. Janja arregala os olhos, atordoada. Lula, vermelho de raiva:

– Tu não tens o que fazer, miliciano de merda? O Brasil afundando, gente morrendo e tu passando trote?! Racista! Misógino! Assassino!

Do outro lado da linha, Bolsonaro e os filhos não conseguem controlar as gargalhadas. Todos se mijam. Frouxo de rir, Bolsonaro se caga.

– Ei, Lula! Eu me caguei aqui! Ahahahaha. Amanhã eu não cago mais, pra salvar a floresta talkei? Hahahahah!

Lula e Janja se olham, incrédulos. Resistência late, uiva, chora. As gargalhadas reverberam no celular. Lula coça o dedo amputado na barba feita. Janja encerra a ligação, ainda boquiaberta. Quando vai desligar o aparelho…

– Peraí, não desliga ainda – pede Lula. – Manda uma mensagem pro Haddad.

– O que eu digo?

– Diz pra ele botar o bloco na rua, que eu vou ser o candidato. Vou acabar com isso. Pergunta se ele quer ser vice.

– Mas, Prê… – Janja acaricia os cabelos de Lula. – E o Ciro?

Lula dá um passo pra trás, olha pra Janja, põe as mãos na cintura e protesta, indignado:

– Tu tá de sacanagem, né?

Tempos depois...

Na mansão, em Brasília, refeitos, Bolsonaro e os filhos se reúnem para conspirar. O presidente chupa um gole de leite condensado direto da latinha e começa:

– E aí, 02? Gravou tudo?

– Sim senhor!

Bolsonaro vira para Renan:

– Ô 04! O pessoal daquela produtora lá mexe com áudio?

– Mexe sim, pai.

Eduardo sugere:

– Presidente, posso mandar o Carioca gravar umas falas falsas do Lula?

– Boa, 03! Manda bala! Edita tudo, envia pro Edir e pro Silvio botarem na TV. Manda uma versão pro Malafaia e uma cópia pro Waldemiro, com os latidos da cadela. Bora espalhar que o Lula tá comendo a cachorrinha.

– Será que cola, pai? – desconfia Eduardo.

– Tá brincando, 03? Se os caras acreditam que feijão cura covid e quem se vacina vira jacaré! Esses daí acreditam em qualquer coisa.

Flávio, até então calado, pergunta ao pai:

– E eu, presidente? Qual é a missão?

– Porra, 01! Tu tratas de ficar quieto, cacete! Para de fazer cagada! Seis milhões nessa mansão, pô! Quer foder a firma?

– Mas pai…

– Mas é o caralho. Já não chega esse monte de cadáver aí me aporrinhando.

O senador baixa a cabeça. Bolsonaro se levanta e ordena:

– Acabou a reunião. Liga a TV nessa Globo de merda aê. Hoje tem paredão, porra. É melhor que ver essas fake news, aê, inventando pandemia.

Tristes tramoias: pela hora da morte

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Olavo Dutra

Nem os 330 milhões de deuses hindus – dizem na Índia que o panteão bate a casa do bilhão – poderiam prever três fatores que, por estas bandas, ajudam na varredura de memórias levadas pela pandemia do novo coronavírus. Ora ilustres, ora anônimas, de certo modo centenas delas, entre mais de 10 mil mortos, se foram por conta de uma sequência de trapaças que envolvem o imobilismo e a omissão da classe política do Estado, o silêncio da mídia tradicional sobre diversas irregularidades e até a falta de maior empenho de órgãos oficiais de fiscalização, incluindo aqueles temerosos de enfrentar o poder.

No Pará, com mais de 1,3 milhão de doses de vacinas enviadas pelo governo federal, menos de 10% da população ainda não está imunizada, mas, bem antes de a Covid-19 dizer à população a que veio a Polícia Federal já investigava e prendia autoridades acusadas por desvios de dinheiros públicos, com fraudes na compra de respiradores inservíveis e garrafas pet para álcool gel por valores milionários. O carro saiu na frente dos bois e a impressão geral, hoje, é de que se vive uma sensação de obscenidade pública.

Esse é o panorama geral, mas, por baixos dos panos seguem os horrores de uma guerra injusta que, por mais que as autoridades queiram negar, superestimando números e com 365 dias de propaganda massiva já não enganam o populacho que se aglomera em portas de bancos em busca de favores e multiplica – oficialmente, pois que com o placê do Estado – por seis o número de infectados, fazendo a roda da morte girar dia após dia. Nos grotões, a situação é pior: a fome atinge famílias talvez no mesmo ritmo que o próprio vírus.

Na outra ponta – por trás das cercas embandeiradas que separam quintais – escondem-se respiradores pulmonares, nega-se remédio a pacientes intubados, joga-se fora a lista de prioridades de imunização para atender aos seus, fazem-se negócios escusos e ninguém diz nada, seguindo o ritmo ditado pelo conformismo do primeiro eu, segundo eu, terceiro, eu. Uma coisa, porém, é fato: não falta dinheiro para tirar a população da UTI – tanto quanto não falta ao Estado para investimentos como a recuperação do Mangueirão por R$ 146 milhões, construção de hospital de campanha e obras que visam às eleições de 2022.

 E, em não faltando dinheiro, o que falta mesmo?

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