Depois do caso da venda de espinhas de peixe, supermercado em bairro nobre de Belém passa a vender gordura aos consumidores/Divulgação

Por Flávio Bezerra Barros*

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Respire fundo. Vou contar para todo mundo saber. No crepúsculo da última sexta-feira, dia 22 de outubro de 2021, presenciei algo jamais visto em nosso País. Como se não bastassem as constatações de venda de ossos e carcaças de peixes para as pessoas consumirem, agora temos mais uma opção nas prateleiras dos supermercados de Belém: gordura bovina.

Ao entrar no Supermercado Econômico, localizado no bairro Umarizal, região central da cidade de Belém e, depois de caminhar por diversas seções do estabelecimento comercial, enfim, cheguei ao setor de carnes vermelhas. Meu filho e minha companheira me acompanhavam e o primeiro, apreciador de carnes e exímio fazedor de hambúrguer artesanal, havia pedido para comprar uma carne moída (picadinho, como falamos em Belém!). Ao continuar transcorrendo esse departamento da loja, encontro gordura bovina à venda por R$ 15,99 o quilo.

Chocado com a realidade à minha frente, procurei imediatamente o gerente do supermercado para que pudesse explicar tamanho ato de covardia. Sim, muita covardia! Ao encontrá-lo, não tive como deixar de expressar minha indignação e interpelá-lo sobre essa humilhação para com a população de baixa renda, que mais sofreu com os agravos provocados pela pandemia da Covid-19, mas, sobretudo, pelas políticas do governo federal, as quais levaram à degradação das condições de vida da maior parcela da população brasileira.

Com ar desconcertante, o gerente e mais dois funcionários tentavam encontrar uma explicação para justificar o injustificável e diziam: “outros supermercados fazem isso”, “vendemos essa gordura para complementar o churrasco”, dentre outras narrativas sem cabimento. Eu, então, solicitei que o supermercado recolhesse aquele subproduto, que se tratava de algo absurdo, cuja referida atitude representava enorme violência contra as pessoas em situação de vulnerabilidade, cujo índice vem aumentando a cada dia. E reforcei a um deles em meio à insistência de tentar me convencer que aquilo era algo normal, menor, lançando a questão: na condição de trabalhador assalariado e pai de família, tens coragem de comprar gordura para alimentar sua família? Ele respondeu que não. Por fim, ameacei: ou vocês recolhem essa coisa ou vou chamar a imprensa. Em seguida, me despedi dos funcionários, reforçando que eles deveriam resistir à ordem superior (o que é muito difícil, claro!) de colocar à venda o tipo de produto em referência.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Estado do Pará representa o terceiro maior rebanho bovino do Brasil, com produção em alta, 2,3 milhões de cabeças, com crescimento de 6,3%, sendo São Félix do Xingu/PA o município campeão em produtividade. Por outro lado, esta atividade agropecuária representa uma das mais degradantes para a floresta amazônica.

Num cenário de aumento dos índices de insegurança alimentar e nutricional, principalmente entre as mulheres e pessoas negras, não podemos naturalizar essa incivilidade: comercialização de ossos, carcaça de peixe e, como registrei, gordura animal. É ultrajante, ainda mais num estado de dimensões continentais, cuja natureza abençoa seu povo com alimentos que brotam das matas, águas, campos, manguezais e solos férteis, ver atitude de extrema malvadeza. Vender gordura para fins alimentares significa reduzir as pessoas a animais e olhe lá. Carne à vera só os outros, como o dono do estabelecimento comercial, que vêm lucrando com a pandemia da Covi-19 e as políticas neoliberais do governo federal, têm o direito de comer. Os demais, trabalhadores e trabalhadoras assalariados, não. Estes devem se alimentar de gorduras, ossos e carcaças de peixe.

O Brasil, cujos índices da fome e extrema pobreza vinham decaindo nos últimos anos, de 2017 para cá estão crescendo de forma alarmante. Em nosso País, de acordo com os dados do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19, da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), há quase 20 milhões de pessoas passando fome. E a extrema pobreza quase triplicou, passando de 4,5% da população para 12,8%.  Segundo estudo da ONG Oxfam, a fome pode matar onze pessoas por minuto no mundo, mais que a Covid-19, que causa a morte de sete pessoas. O Brasil, juntamente com a Índia e África do Sul, estão no foco da atenção, o que é lamentável.

Como disse o Papa Francisco em sua encíclica “Laudato si’”, em 2015, fazendo referência a um cântico de São Francisco, “Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe Terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras”. Certamente essa mãe Terra que tudo nos dá deve estar desapontada com seus filhos “humanos”. Precisamos resistir, nos indignar e denunciar essa tirania fria, simbólica ou disfarçada de normalidade.

*Flávio Bezerra Barros: PhD, professor associado da Universidade Federal do Pará, pesquisador produtividade do CNPq e presidente da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia (SBEE).

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