Sebastião Godinho

Patrimônio Histórico

Belém é terra do infame “já teve”?

Divulgação

O advogado, escritor e imortal pela Academia Paraense de Letras Sebastião Godinho (foto) faz um passeio sobre Belém e as perdas de obras históricas que a cada ano vão reduzindo o patrimônio histórico da cidade a zero. Nesta entrevista, ele aponta perdas de até R$ 2 milhões em obras surrupiadas somente da Praça Floriano Peixoto, em São Brás, critica a inoperância da prefeitura e sugere a qualificação da Guarda Municipal para evitar novas perdas históricas.

  • Nos últimos dois, três anos, o senhor tem denunciado o desaparecimento de obras instaladas em espaços públicos de Belém. Quais obras o senhor considera verdadeiramente importantes, seus autores, valores que representavam e eventuais destinos: sumiram, integram alguma coleção particular?
  • Sim. Infelizmente, sim. Belém, na procissão dos anos, foi desfalcada de muito dos seus bens históricos, suas indústrias, seus monumentos. E isto não é de agora. Há muito que a cidade vem perdendo suas características e poucos são aqueles que disso se dão conta.
  • Existem investigações no âmbito do Estado para tentar resgatar essas obras ou as denúncias caem no vazio (o Museu Goeldi teria perdido uma peça riquíssima para larápios, um muiraquitã, de dentro de seu acervo: que fim levou esse caso)?
  •  As duas peças instaladas na Praça Floriano Peixoto, em São Brás – “A República” e as “Artes” -, de autoria de Bruno Giorgia, foram perdas significativas. Cada uma delas foi avaliada por um jornal de São Paulo em R$ 1 milhão. Seria leviano atribuir o seu furto a esse ou aquele autor. Porém, uma delas foi encontrada totalmente vandalizada, cortada em vários pedaços em um terreno abandonado ao lado do mercado. Um busto do Barão do Rio Branco, da escultora paraense Julieta de França, em bronze, também foi outra perda significativa. A imagem “As Artes”, que mencionei possivelmente foi furtada por desocupados e drogados que enxameiam as imediações de São Brás.
  •  O senhor não considera superficial atribuir o desaparecimento de peças históricas – não só das praças públicas, mas do interior de igrejas e de prédios públicos – a ladrões comuns? Existem colecionadores para essas peças em Belém – como no caso de peças sacras furtadas da igreja em Vigia? Quem ganha com isso, afinal?
  •  Isso é uma das minhas angústias: a falta de interesse em investigar o sumiço das peças furtadas. Demonstra que as autoridades não se interessam em recuperá-las, revelando pouco caso com essas obras de valor histórico e artístico, partes importantes da história da cidade. O muiraquitã era de propriedade do memorial do Forte do Castelo, sendo mais um que ficou para as calendas gregas.
  • Pedras de lioz, provenientes de Portugal na época da colonização e que foram usadas na pavimentação do Centro de Belém, são consideradas patrimônio histórico? O senhor ouviu falar que muitas delas foram surrupiadas para compor a decoração de algumas casas antigas – e nem tanto – e quintais da cidade?
  • As pedras de lioz eram usadas para lastrear embarcações que vinham para cá com o objetivo de levar para Portugal as cargas que interessavam à Corte. Foram aproveitadas no calçamento da Cidade Velha e Campina. Ninguém dá importância a elas, nem mesmo a prefeitura, embora mereçam ser consideradas no acervo histórico que enriquece a cidade. Já vi muitas delas serem mutiladas por trabalhadores que prestam serviços à própria municipalidade, sendo às vezes substituídas sem que se saiba o seu paradeiro.
  • Há uma teoria de que essas peças são furtadas para atender as oficinas que trabalham com a fabricação de hélices para embarcações. É uma teoria. Não há indícios da participação de colecionadores nesses descaminhos.
  • O que o senhor sugere para buscar resolver esse problema, considerando que, em Belém, a Guarda Municipal tem se mostrado impotente para tal e, no Estado, a Polícia Civil não investiga, portanto, ninguém foi preso por isso até hoje?
  • A Guarda Municipal foi criada com esse objetivo. Porém, com o passar do tempo, acabou se desnaturando, assumindo outras finalidades. Numa reunião onde falei para policiais acerca do desaparecimento das peças em bronze de nossos logradouros, o representante do comandante da guarda, surpreendentemente, disse que desconhecia os furtos. A Guarda Municipal precisa ser treinada para voltar à sua finalidade institucional que é, de fato, a salvaguarda dos bens municipais.
  • É pública e notória sua desavença com o ainda prefeito Zenaldo Coutinho. Seus artigos, muito contundentes, provocaram a reação do prefeito e o senhor se fechou em copas. Não está na hora de uma trégua, de tirar a faca dos dentes? Afinal, vocês são imortais pela Academia Paraense de Letras, entidade que criou comissão para acompanhar e pedir providências da prefeitura contra furto de obras.
  • A Comissão Especial de Defesa do Patrimônio Histórico de Belém, da qual faço parte, é do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, não da Academia. E ao que me consta o prefeito não faz parte do IHGP. Minha luta é contra a inércia do prefeito, não contra o cidadão. Sua reação aos meus artigos foi respondida, não me fechei em copas, como você diz. Se disse algo mais eu não tomei conhecimento.
  • Sua cruzada contra esse descaso com o patrimônio público só tem pernas dentro de Belém? E no âmbito do Estado e da União? O Iphan está nas mãos de um religioso sem qualquer experiência na área, em detrimento de profissionais reconhecidamente qualificados no Pará.
  •  A luta em defesa do patrimônio histórico de Belém já me desgasta demais. Muitos me olham com um olhar torto porque eu defendo a cidade do descaso das autoridades, e todos querem ser amigos dos poderosos, não de seus críticos. Essa luta joga você pra escanteio, literalmente. A política, quase sempre, cria esses aleijões administrativos, colocando o joio no lugar do trigo. Infelizmente.
  • O senhor fala com frequência sobre a “amizade fraterna” que o uniu com o saudoso maestro Waldemar Henrique, nosso maior expoente musical da Amazônia. Qual o maior legado que ele deixou?
  • Waldemar Henrique é o maior compositor paraense de todos os tempos. Seu maior legado foi produzir uma obra musical autêntica, totalmente isenta de influências, ao contrário de muitos outros cujas produções musicais nos revelam, de imediato, não apenas influências, mas plágios escandalosos.
  • Quais são as suas expectativas, o que deverá mudar em Belém com relação ao patrimônio público com a eleição de Edmilson Rodrigues – ele que, na administração anterior, era apontado como “fazedor de obras de R$ 1,99” – uma delas, a propósito, a Praça Waldemar Henrique, Praça da Bíblia…?
  • Edmilson Rodrigues, independentemente de ideologia política, sempre se mostrou um amigo das artes e dos artistas. A ele se deve a Praça Waldemar Henrique, onde mandou chantar uma placa com o meu nome, arrancada na atual administração. Tenho esperança que ele olhe com mais carinho a está Belém tão maltratada, principalmente no que concerne aos seus marcos históricos. Torço por isso. Vamos aguardar.

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