Temporal do último domingo coincide com sequência de fenômenos extremos no País e reforça a necessidade de a capital paraense investir em prevenção e adaptação às mudanças do clima.
No caso de Belém, não se trata do que vai, mas do que pode acontecer - e se a cidade está mais preparada do que domingo, em Mosqueiro/Fotos: Divulgação.
temporal que atingiu Mosqueiro no último domingo deixou um rastro de árvores derrubadas, vias interditadas, falta de energia em alguns pontos e muito medo entre moradores e veranistas. Em poucos minutos, a chuva intensa e os ventos fortes transformaram um dia de lazer em cenário de insegurança.
O episódio, no entanto, não deve ser tratado apenas como mais um contratempo provocado pelo inverno amazônico. Ele ocorre justamente quando o Brasil registra uma sucessão de eventos climáticos extremos, com tempestades, vendavais e enchentes ocupando as manchetes dos principais jornais do País.
Meteorologistas alertam que a atmosfera mais aquecida favorece a ocorrência de fenômenos extremos. Ao mesmo tempo, a formação de um novo episódio do El Niño pode alterar o comportamento das chuvas em diversas regiões brasileiras nos próximos meses.
Isso não significa que o temporal de Mosqueiro tenha sido causado diretamente pelo El Niño. A ciência recomenda cautela antes de atribuir um evento isolado a um único fenômeno climático. O que já está bem estabelecido é que o aquecimento global e oscilações como o El Niño aumentam a probabilidade de chuvas intensas, rajadas de vento e outros episódios severos.
Para Belém, a pergunta é inevitável. A cidade convive há décadas com problemas de drenagem, canais assoreados, ocupação de áreas sujeitas a alagamentos e uma arborização que, embora fundamental para amenizar o calor, exige monitoramento permanente.
Árvores antigas ou sem manutenção adequada podem se tornar um risco durante vendavais. Da mesma forma, bueiros obstruídos e sistemas de drenagem insuficientes ampliam os prejuízos quando a chuva cai com intensidade acima do normal.
O episódio de Mosqueiro mostrou como poucos minutos de instabilidade são suficientes para comprometer a mobilidade, interromper serviços e colocar pessoas em perigo.
Os especialistas são unânimes ao defender que a resposta aos eventos extremos não pode começar apenas depois dos estragos. Investimentos em poda preventiva, monitoramento da arborização, limpeza de canais, ampliação da drenagem urbana, sistemas de alerta e fortalecimento da Defesa Civil custam muito menos do que reparar os danos provocados por uma tragédia.
Planejamento urbano e gestão de riscos deixaram de ser apenas questões administrativas. Tornaram-se políticas públicas indispensáveis diante de um clima cada vez mais imprevisível.
O temporal que assustou Mosqueiro talvez não tenha sido o maior já registrado na ilha. Mas foi suficientemente forte para lembrar que Belém também está sujeita aos efeitos de uma nova realidade climática.
As imagens de árvores tombadas e ruas bloqueadas impressionam. Mais importante, porém, é a mensagem que elas transmitem: a natureza está impondo novos desafios às cidades brasileiras. Ignorá-los seria um erro. Afinal, a questão já não é saber se outro evento extremo voltará a atingir Belém. A dúvida é se, quando isso acontecer - se acontecer -, a cidade estará mais preparada do que estava no último domingo.

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Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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