Estimativa não inclui correção monetária; empresa já acionou mecanismos para reajuste tarifário adiado de abril para depois das eleições/Fotos: Divulgação.
Falta, má qualidade, ou cobranças indevidas de consumo de água tiram sossego da população, que deve aguardar reajuste previsto para depois da eleição/Fotos: Divulgação.
concessão do saneamento abre um novo capítulo de um enredo repleto de dúvidas. O ponto central do aditivo é o reequilíbrio econômico-financeiro, pelo qual o Estado reconhece a manutenção dos descontos do Programa Água Pará e cria uma compensação para preservar o equilíbrio econômico dos contratos dos blocos A, B, C e D. Coincidentemente, a medida possui forte impacto no período eleitoral.
Pelas novas regras, os beneficiários do Programa Água Pará terão os seguintes descontos tarifários: 2026: 100% de desconto; 2027: 79,44%; 2028: 59,58%; 2029: 39,72%; e 2030: 19,86%. A partir de 2031, o programa será extinto e os usuários passarão a pagar integralmente a tarifa vigente conforme o documento.
Como contrapartida, o Estado reduziu o valor do metro cúbico de água tratada fornecida pela Cosanpa à concessionária nos municípios de Belém, Ananindeua e Marituba. O termo aditivo estabelece um redutor de 4,51% no preço do metro cúbico (m³), equivalente a R$ 0,090 por m³, considerando os preços de dezembro de 2023. A redução começará a vigorar em janeiro de 2028 e permanecerá até o término dos contratos de concessão. Essa medida fortalece os rumores sobre um possível esvaziamento da Cosanpa em curto prazo, já que a concessionária é sua única cliente.
Especialistas em saneamento ouvidos pela coluna que tiveram acesso ao termo aditivo estimam que essa compensação poderá representar mais de R$ 650 milhões em benefício à concessionária, sem correção monetária. Se essa estimativa estiver correta, significa que grande parte do valor pago no leilão dos quatro blocos de saneamento - cerca de R$ 1,8 bilhão - acabará sendo compensada pelo próprio Estado ao longo do contrato.
A concessionária Águas do Pará já acionou o mecanismo contratual referente ao reajuste tarifário que deveria ter sido aplicado a partir de abril de 2026. Segundo informações obtidas pela coluna, o Estado negociou, através da Arcon e da PGE, a aplicação desse reajuste de 4,38%, mas somente depois das eleições, mediante novas compensações e reequilíbrios contratuais - mas tudo está em segredo.
A coluna procurou os órgãos envolvidos para que prestassem esclarecimentos, mas não obteve retorno até o fechamento desta publicação. O espaço permanece aberto para manifestações e esclarecimentos que considerem pertinentes.
O Termo de Compromisso firmado em 29 de agosto de 2025 entre Estado do Pará, Arcon, Cosanpa e Águas do Pará acrescenta uma nova camada de questionamentos à concessão dos serviços de água e esgoto.
Como revelou a coluna, o documento foi assinado menos de um mês depois da celebração dos contratos e estabeleceu o caminho administrativo para tratar do reequilíbrio econômico-financeiro da concessão, procedimento que só seria formalizado no Primeiro Termo Aditivo, em dezembro daquele ano.
A cronologia altera a compreensão até então conhecida sobre as mudanças promovidas no contrato. O que parecia decorrer da execução da concessão passa a demonstrar que as discussões sobre alterações já estavam institucionalizadas poucas semanas depois da assinatura.
O documento registra que a Procuradoria-Geral do Estado considerou não haver tempo suficiente para concluir os procedimentos necessários ao reequilíbrio antes da entrada em vigor plena dos contratos. A informação, contudo, abre novas indagações.
Se o mecanismo de recomposição precisou ser estruturado logo no início da concessão, quais estudos técnicos, pareceres jurídicos e análises econômicas fundamentaram essa decisão? Em que momento surgiu a necessidade de rever aspectos do contrato? Durante a modelagem da concessão, na fase de transição ou já depois da assinatura?
O Termo de Compromisso não responde a essas perguntas, mas indica que existe um processo administrativo mais amplo, composto por notas técnicas, manifestações da Arcon, pareceres da Procuradoria-Geral do Estado e demais documentos que antecederam o Primeiro Termo Aditivo.
Enquanto o poder público estruturava, em poucas semanas, um procedimento destinado a preservar o equilíbrio econômico-financeiro da concessão, outra realidade começava a ganhar espaço fora dos gabinetes.
Desde o início da operação da Águas do Pará, a coluna vem registrando o crescimento das reclamações de consumidores sobre cobranças consideradas indevidas, dificuldades para obtenção de informações, contas atribuídas a imóveis sem fornecimento regular de água e filas nas unidades de atendimento da concessionária.
São situações distintas, mas que acabam se encontrando no mesmo contrato. De um lado, a preocupação institucional com a estabilidade econômico-financeira da concessão. De outro, consumidores que afirmam enfrentar dificuldades para contestar cobranças e obter solução para problemas relacionados ao serviço.
O reequilíbrio econômico-financeiro é instrumento previsto na legislação e integra a rotina dos contratos administrativos. O que chama atenção, neste caso, é a velocidade com que o tema entrou na agenda oficial da concessão. Agora, a discussão deixa de ser apenas documental. Ela alcança o cidadão que paga a tarifa e espera que a mesma agilidade demonstrada para tratar da saúde financeira do contrato também se reflita na proteção dos direitos do usuário, na transparência das cobranças e na qualidade do atendimento.
O Termo de Compromisso revelou que a revisão da concessão começou antes do que se imaginava. A etapa seguinte será compreender quais decisões foram tomadas nesse percurso e, principalmente, quais reflexos elas terão para quem, no fim da cadeia, paga a conta.

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Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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