Se para conseguir leito, consulta ou cirurgia é preciso procurar padrinho político, o discurso passa da ineficiência para a humilhação do cidadão
Há algo profundamente errado quando um brasileiro espera um ano por uma cirurgia de amígdalas, retirada da vesícula ou outro procedimento capaz de devolver-lhe saúde, trabalho e dignidade. Pior ainda quando a escassez transforma direito em favor.
Se para conseguir leito, consulta ou cirurgia é preciso procurar vereador, deputado ou algum padrinho político, já não estamos falando apenas de ineficiência. Estamos falando da humilhação do cidadão.
Saúde pública não pode funcionar por favor. Leito não pode ser moeda de influência. Cirurgia não pode depender de amizade política. O cidadão já pagou. Pagou no salário, na comida, na gasolina, na conta de luz. Quando adoece, não pede caridade ao Estado. Exige serviço público.
E uma experiência brasileira demonstra que parte desse drama pode ser enfrentada quando financiamento e capacidade hospitalar deixam de ser tratados apenas com discursos. É a Tabela SUS Paulista.
Entenda: desde 2024, São Paulo complementa, com recursos do Tesouro estadual, os valores da tabela nacional pagos aos hospitais conveniados ao SUS. Em determinados procedimentos, a remuneração pode chegar a cinco vezes o valor federal.
A lógica é elementar: hospital não funciona com boa intenção. Precisa pagar médicos, enfermeiros, medicamentos, equipamentos, materiais e manutenção. Se realizar determinado procedimento significa prejuízo, cria-se um incentivo perverso à redução da oferta. Os resultados merecem atenção.
Os repasses acumulados da Tabela SUS Paulista já ultrapassaram R$ 10 bilhões, alcançando cerca de 800 instituições. Aproximadamente R$ 8,3 bilhões foram destinados a internações e R$ 2,4 bilhões a procedimentos ambulatoriais. Mas dinheiro público só interessa quando vira atendimento.
São Paulo informa ter aberto ou reativado mais de 8 mil leitos nos últimos três anos. Nas cirurgias eletivas, o salto foi ainda mais eloquente: cerca de 700 mil, em 2022, para 1,3 milhão, em 2025 - crescimento de 85,7%. Também houve expansão em procedimentos oncológicos, cardíacos e oftalmológicos.
Isso não significa que São Paulo tenha acabado com suas filas. Tampouco que seu modelo seja perfeito ou possa ser transplantado mecanicamente para outros estados. Há questões importantes: dependência do Tesouro estadual, sustentabilidade fiscal, diferenças regionais de capacidade hospitalar e necessidade permanente de fiscalização sobre produtividade e qualidade.
Mas há uma conclusão difícil de ignorar: fila não precisa ser aceita como paisagem permanente do SUS. Se é possível remunerar melhor os prestadores, recuperar milhares de leitos e quase duplicar o número anual de cirurgias eletivas, outros governos deveriam estudar seriamente essa experiência.
Não para copiar propaganda, mas para copiar aquilo que funciona. Talvez esteja aí uma discussão que o Brasil evita há décadas. Falamos muito sobre quanto custa o SUS. Precisamos perguntar também quanto custa remunerá-lo mal.
Quanto custa manter uma sala cirúrgica subutilizada?
Quanto custa deixar um leito fechado?
Quanto custa manter um trabalhador meses parado esperando uma cirurgia?
Quanto custa uma doença simples quando, abandonada na fila, torna-se grave?
E, sobretudo, quanto custa a indignidade?
Essa conta raramente aparece no orçamento. Mas aparece diariamente nos corredores dos hospitais: no aposentado esperando horas, na mãe peregrinando por uma consulta, no trabalhador convivendo meses com dor.
E aparece de maneira ainda mais vergonhosa quando uma família procura influência política porque já não acredita que conseguirá atendimento pelos caminhos normais. Esse é talvez o retrato mais perverso do fracasso administrativo: quando o cidadão deixa de acreditar no direito e começa a procurar o favor.
Defender o SUS não é fechar os olhos para filas, gargalos e distorções. É justamente o contrário. É medir tempo de espera. Publicar filas. Estabelecer metas. Remunerar adequadamente. Cobrar produtividade. Fiscalizar cada real. Abrir leitos. Realizar cirurgias.
É garantir que ninguém precise conhecer político algum para receber aquilo que a Constituição já lhe assegura. A experiência paulista pode e deve ser observada, aperfeiçoada e discutida. Mas seus resultados merecem atenção.
Porque, diante de uma pessoa esperando um ano por uma cirurgia, existem duas maneiras de governar: uma é explicar por que a fila existe. A outra é fazê-la andar.
Foto: Divulgação
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José Croelhas é economista,
consultor, escritor e palestrante
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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