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"NO PADRE E NA MISSA"

Asfalto novo, degrau velho e o Círio pela frente; muito cuidado com desnível da rua

Recapeamento da avenida Nazaré provoca ironia nas redes e levanta preocupação com o desnível junto às calçadas

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  • Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 27/09/26 16:36

“Calendário de urgência” para as feridas de Belém esbarra num detalhe este ano criado pela prefeitura: remédio errado/Fotos: Divulgação.


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Prefeitura de Belém parece ter descoberto uma modalidade nova de pavimentação: aquela em que o asfalto fica novo, mas a calçada fica parecendo antiga - e muito mais baixa.

 A mais recente polêmica da cidade envolve o recapeamento da avenida Nazaré, no trecho entre a Praça da República e a travessa 14 de Março, justamente numa das áreas mais simbólicas do percurso do Círio. O prefeito Igor Normando foi às redes sociais acompanhar e divulgar o serviço, com direito a uma declaração que acabou ganhando um charme involuntariamente profético: “Não é asfalto Sonrisal, não. É recapeamento de verdade”.

Sonrisal, não, mas também não precisava criar um Grand Canyon entre a pista e a calçada, excelência.

 O degrau do Círio

O problema que aparece nas imagens e provocou comentários nas redes não é propriamente a qualidade do material, que precisaria de avaliação técnica para ser discutida. O que chama atenção é o desnível formado entre o piso recém-recapeado e as calçadas. E aí entra o Círio.

A avenida Nazaré não é uma rua qualquer. Ela faz parte do cenário central da maior manifestação religiosa de Belém e recebe um fluxo extraordinário de pedestres durante as procissões. A programação oficial do Círio 2026 estima 2,3 milhões de participantes na grande procissão de 11 de outubro. 

Para quem vai de carro, um degrau de alguns centímetros pode parecer apenas um detalhe. Para quem vai descalço, cansado, apertado na multidão e puxando a corda, pode ser outra conversa. A corda, aliás, tem uma característica curiosa: não costuma perguntar se o romeiro está preparado para tropeçar.

Humor entra na pista

As redes sociais fizeram aquilo que Belém sabe fazer como poucas cidades: diante de uma situação meio complicada, primeiro reclama; depois fotografa; em seguida faz meme. Um internauta parabenizou ironicamente a Prefeitura pelo “grande desnível” na avenida Nazaré. Outro imaginou que, daquele jeito, os veículos ainda acabariam “voando” da pista para as residências. É o velho mecanismo paraense de rir para não chorar.

E talvez seja até saudável que o prefeito não leve tudo isso para o lado pessoal. Afinal, a crítica não precisa ser contra Igor Normando. Pode ser a favor de uma coisa bem mais simples: que a obra fique pronta direito.

A própria Prefeitura tem demonstrado preocupação com a preparação do percurso do Círio. Em setembro, a Sezel informou ter realizado poda preventiva em 500 das 600 árvores localizadas nos principais trajetos das procissões.  Então, se estão cuidando das árvores, dos arcos, da logística e de tudo o mais, não custa dar uma olhada também no chão.

É nele que o povo vai pisar.

 Todo ano de novo

Há uma questão maior por trás do episódio. O Círio acontece todos os anos e todos os anos o trajeto precisa estar em condições adequadas para receber romeiros, visitantes, moradores e o enorme volume de veículos que circula pela região. Não deveria ser novidade de outubro.

O problema de Belém é que muita coisa ainda parece funcionar no calendário da urgência: espera-se o Círio chegar para lembrar que Nazaré precisa de asfalto; espera-se a chuva para lembrar que precisa de drenagem; espera-se o buraco crescer para lembrar que a rua existe.

Planejamento seria uma boa invenção. E tem uma rua ali perto que pode servir de lembrete. Na Padre Champagnat, entre a 16 de Novembro e a área da Sé, os buracos continuam sendo um problema para quem circula pelo trecho.

Para os romeiros, a pergunta é simples: se a promessa é caminhar descalço, será que a Prefeitura pode pelo menos prometer um chão que não faça ninguém precisar de outra promessa?  Asfalto Sonrisal pode até não ser, mas degrau de Círio também não deveria ser.

Papo Reto

•Se nada mais interessar, convém ficar atento à fala do presidente Lula )foto), amanhã, em Belém, sobre os bastidores políticos vazados no Pará e, quem sabe, o suposto “voto útil”. Fontes do PT que o digam.

•Em Altamira, a Justiça Eleitoral recolheu propaganda irregular do MDB. A regra é conhecida, mas os políticos apostam na impunidade. Se a fiscalização apertar em Belém, preparem os caminhões: vai faltar terreno para tanta bandeira arrancada dos canteiros.

•O prefeito de novo repartimento, Valdir Lemes Machado, do PSD, declarou apoio a Daniel Santos em evento alinhado ao apoio a Flávio Bolsonaro.

•A Henvil, por sua vez, olha para o Maranhão. O novo ferry São Miguel terá capacidade para 1,1 mil passageiros, 70 veículos leves e 30 motocicletas, fazendo a ligação entre Cujupe e Ponta da Espera, em São Luís. Seis viagens diárias. É o setor privado enxergando demanda onde muita gente só enxerga mapa.

•O deputado Rogério Correia, do PT mineiro, foi condenado a indenizar Jair Bolsonaro por divulgar uma montagem feita com IA. A Justiça mandou pagar R$20 mil, retratar-se e não repetir a publicação.

•Correia já avisou que não vai pagar alegando imunidade parlamentar. Pelo visto, para alguns, decisão judicial só é sagrada quando sai com o resultado desejado. Quando não sai, vira sugestão.

•Segundo a Veja, David Alcolumbre chamou dono do Master de "meu amor" e "irmão fraterno". O presidente do Senado classificou o material como "sensacionalismo barato"; negou a validade da prova, mas não explicou o motivo final de seu comportamento.

•Aliança liderada pelos EUA classificou o PCC e o Comando Vermelho como grupos narcoterroristas, prevendo sanções como congelamento de bens e restrição de vistos para membros e apoiadores. Ou seja: agora o crime organizado brasileiro tem currículo internacional - e nem precisou pagar taxa de exportação.

•Durante a Assembleia Geral da ONU, governantes e empresários discutiram a criação de regras para o avanço da inteligência artificial. Donald Trump se posicionou contra restrições.

•As campanhas eleitorais já torraram R$160 milhões em impulsionamento de conteúdo nas redes sociais. É grana suficiente para comprar muita coisa, menos, aparentemente, a atenção espontânea do eleitor.

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.