Modelo exaltado por setores da esquerda brasileira enfrenta crise estrutural mais profunda que o chamado Período Especial.
uba sempre ocupou um lugar especial no imaginário político de setores da esquerda brasileira. A ilha dos carros antigos, da educação universalizada, da medicina exportada e do discurso anti-imperialista tornou-se, ao longo de décadas, uma referência simbólica - mais emocional do que empírica - de resistência ao capitalismo liberal. O problema é que símbolos, quando confrontados com dados, tendem a perder o verniz.

Estudos recentes e avaliações de especialistas indicam que a crise enfrentada hoje por Cuba ultrapassa o discurso da escassez conjuntural ou do cerco externo. Trata-se de um colapso econômico e social com raízes estruturais, aprofundado por choques sucessivos e por um modelo incapaz de se adaptar às próprias limitações.
Segundo o economista cubano Carmelo Mesa-Lago, professor emérito da Universidade de Pittsburgh, o sistema econômico centralmente planejado e a incapacidade crônica das exportações cubanas de financiar importações estão no centro da crise. O embargo dos Estados Unidos, frequentemente tratado como causa absoluta, aparece como agravante - relevante, mas não exclusivo. A pandemia de covid-19 funcionou como acelerador de um processo que já estava em curso.
Desde 2019, o Produto Interno Bruto (PIB) da ilha caiu mais de 15%. Apenas em 2025, a retração foi de 5%. Dados oficiais indicam queda generalizada na agricultura, na pecuária, na indústria e na pesca. Cuba importa cerca de 80% dos alimentos que consome - um dado que desafia a narrativa de soberania produtiva frequentemente celebrada em debates ideológicos fora da ilha.
O quadro energético agravou ainda mais a situação. A interrupção do fornecimento de petróleo por aliados estratégicos resultou em apagões diários, afetando produção, serviços e a vida cotidiana. Relatórios do Unicef apontam déficit nutricional relevante - um tema historicamente sensível tanto para o discurso oficial cubano quanto para seus defensores externos.
Mesa-Lago compara o momento atual a algo pior do que o chamado “Período Especial em Tempos de Paz”, vivido após o colapso da União Soviética. A diferença central está na profundidade da crise e na ausência de um parceiro internacional capaz de sustentar a economia cubana como no passado.
Para setores da esquerda brasileira que ainda tratam Cuba como referência moral ou modelo alternativo, os dados impõem um constrangimento crescente. Não se trata de ignorar o peso das sanções externas ou da geopolítica internacional, mas de reconhecer que a crise também resulta de escolhas internas reiteradas - protegidas, por décadas, por uma narrativa impermeável à autocrítica.
No embate entre o mito e a realidade, Cuba já não serve apenas como símbolo. Passa a funcionar como aviso. E avisos, ao contrário de slogans, costumam ser ignorados apenas até o momento em que cobram seu preço.
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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