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Deboche "enlatado" agita conservadores e vira combustível da disputa eleitoral

No País em que até livro se recusa a ocupar “criado mudo”, ala expôs erro estratégico da esquerda: subestimar a força identitária da família e da fé.

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  • Por Olavo Dutra
  • 21/02/26 11:00
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Carnaval sempre dialogou com o poder. Da crítica social ao elogio explícito, a Sapucaí nunca foi neutra. O desfile da Acadêmicos de Niterói, ao homenagear o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seguiu essa tradição.

 

Homenageado em ano eleitoral, presidente da República virou alvo no desfile da Acadêmicos de Niterói, que ironizou “neoconservadores”/Fotos: Divulgação.

O ponto de inflexão não foi a homenagem em si, mas uma ala que ironizava o que chamou de “neoconservadores”, representados por uma família estilizada dentro de uma lata. A metáfora pretendia sugerir atraso, conservadorismo embalado, valores fora de época. Na avenida, pode ter parecido apenas mais um recurso carnavalesco, mas, fora dela, ganhou outra dimensão.

A reação foi instantânea. O que nasceu como sátira passou a circular como símbolo afirmado por milhares de pessoas nas redes sociais. Parlamentares e lideranças religiosas entraram na conversa. O assunto ultrapassou o universo do samba e entrou no território eleitoral.

Há um padrão recorrente nesse tipo de episódio: no Brasil, setores da esquerda cultural tratam certos valores - família tradicional, fé cristã, moral conservadora - como se fossem posições de nicho. No entanto, para milhões de brasileiros, esses elementos são experiências cotidianas, não bandeiras ideológicas. E quando a crítica atinge uma identidade vivida, o efeito pode ser inverso ao pretendido.

Sátira é arte - e cálculo

O carnaval tem licença histórica para provocar. Joãosinho Trinta já defendia que desfile é espetáculo, exagero e narrativa. Mas narrativa também é política. E política envolve cálculo. Em ano eleitoral, qualquer símbolo pode ser apropriado. A política contemporânea opera por imagens simples, replicáveis e emocionalmente carregadas. Às vezes, um objeto comunica mais do que um programa partidário inteiro.

Peso além da liderança

A direita brasileira atravessa fase de dispersão, especialmente após a inelegibilidade de Jair Bolsonaro. Falta unidade de nome, sobra fragmentação de projetos. Contudo, identidades coletivas não dependem exclusivamente de líderes. Família, fé e tradição formam um eixo que antecede candidaturas. Quando esses símbolos são percebidos como atacados, a tendência é gerar coesão. É nesse ponto que o episódio do desfile pode ganhar relevância maior do que parecia à primeira vista.

Dois públicos distintos

Existe ainda uma desconexão frequente entre o ambiente cultural urbano e o eleitor médio do interior. O que soa como crítica sofisticada em certos círculos pode ser interpretado como desprezo em outros. A política brasileira tem histórico recente de subestimar essa diferença. Em 2018, por exemplo, ela foi decisiva, continuou relevante em 2022, mas, este ano, dificilmente será irrelevante.

O efeito colateral

Ao transformar um modelo de família em caricatura, a escola pretendia provocar reflexão ou riso. O resultado prático foi reacender uma identidade que já vinha fragmentada. Nenhuma campanha cria coesão do nada, mas episódios simbólicos ajudam a consolidá-la.

O desfile incluiu referências a Alexandre de Moraes, ao próprio Bolsonaro e a episódios recentes da política nacional. Foi, sem dúvida, um espetáculo com lados. A questão não é se pode. Pode. A liberdade artística garante isso. A pergunta relevante é outra: foi estrategicamente inteligente?

A avenida e a urna

O carnaval termina na quarta-feira e a política continua até outubro e além. Quando manifestações culturais passam a dialogar diretamente com disputas eleitorais, deixam de ser apenas entretenimento. Tornam-se peças de um jogo maior.

A Acadêmicos de Niterói entrou na avenida para homenagear. Saiu dela tendo provocado um debate sobre identidade, respeito e cálculo político, inclusive para seu principal protagonista, o presidente Lula e, na era dos símbolos instantâneos, às vezes o que parece apenas fantasia vira ferramenta – e ferramenta sem uso, enferruja.

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.