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Contradições da COP

Vale paga a conta bilionária - e ainda posa de salvadora do clima em Belém

Mineradora envolvida em tragédias ambientais banca obras, reforçando dependência econômica do Pará e o paradoxo da transição verde à brasileira.

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  • Por Olavo Dutra | Com Dedé Mesquita
  • 06/11/25 12:15
Vale paga a conta bilionária - e ainda posa de salvadora do clima em Belém
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nquanto o planeta se prepara para discutir metas de descarbonização e justiça climática em Belém, a maior mineradora do País, a Vale, trata de assegurar seu protagonismo na COP30 - não nos painéis, mas nas planilhas. A empresa é uma das principais financiadoras das obras de infraestrutura que vão sustentar o evento, da urbanização de vias ao apoio logístico e social em bairros periféricos da capital paraense.

 

Cooperação técnica com governo do Estado e prefeitura é uma operação de imagem calculada que reforça marca “sustentável” da mineradora/Fotos: Agência Pará.

Oficialmente, trata-se de “cooperação técnica” com o governo do Estado e com a prefeitura, por meio de convênios e doações “não reembolsáveis”. Na prática, é uma operação de imagem cuidadosamente calculada: a Vale investe para reforçar a marca “sustentável” e garantir assento privilegiado na mesa do debate climático.

Marketing verde sempre

O valor total das contribuições da mineradora ainda não foi divulgado. Estimativas internas do governo apontam aportes superiores a R$ 400 milhões entre convênios diretos e projetos associados. No discurso oficial, a empresa afirma estar “comprometida com a agenda ambiental e social da Amazônia”, o mesmo tom adotado após as tragédias de Mariana e Brumadinho, que deixaram quase 300 mortos e impactos ambientais incalculáveis.

O paradoxo é evidente: enquanto paga pela COP30, a Vale continua sendo uma das maiores emissoras de gases de efeito estufa do País, além de ampliar frentes de exploração mineral em áreas de floresta e territórios indígenas. A transição verde, no caso, parece incluir um bom espaço para o verde das cifras.

Dependência mineral

O patrocínio reforça um traço antigo da economia paraense: a dependência estrutural da mineração. De cada R$ 10 que entram no caixa do Estado, quase R$ 4 vêm, direta ou indiretamente, da cadeia mineral. A COP30, vendida como símbolo da “nova economia amazônica”, acaba sendo financiada justamente por quem mantém o velho modelo extrativista.

Em Belém, a ironia não passa despercebida. Nos bairros por onde passam as obras custeadas pela Vale, os moradores convivem com poeira, buracos e falta de saneamento. “Dizem que é para o evento, mas aqui nem esgoto tem”, comenta uma moradora do Jurunas. No imaginário popular, a COP virou sinônimo de “obra que não termina e promessa que não chega”.

O lucro da imagem

Para a empresa, o investimento é estratégico. Ao vincular seu nome à conferência, a Vale busca reabilitar sua reputação internacional e suavizar a pressão de acionistas e fundos ambientais. Executivos da companhia devem participar de painéis oficiais e paralelos sobre “mineração sustentável” e “inovação verde”, em parceria com organismos multilaterais e universidades.

Na prática, a empresa ganha o selo de legitimidade que o poder público parece disposto a conceder. Em troca, o governo estadual e a prefeitura garantem recursos sem enfrentar a burocracia de Brasília. Todos saem ganhando - menos o discurso ambiental, que sai da COP mais minerado do que nunca.

Silêncio conveniente

Nem o governo federal, nem o Comitê Organizador da COP30 se manifestaram sobre os valores repassados pela mineradora. Questionado pela Coluna Olavo Dutra, o Ministério do Meio Ambiente limitou-se a informar que “parcerias com o setor privado são bem-vindas, desde que observem princípios de transparência e sustentabilidade”.

O problema é que, na Amazônia, essas parcerias quase sempre acabam desequilibradas: o poder econômico dita o ritmo, e o poder público agradece. A Vale sabe disso - e aproveita como quem ouve Mariah Carey.

A COP30 ainda nem começou, mas a disputa por narrativas já tem vencedor. No Pará, onde o verde é o da floresta e o do minério, a Vale conseguiu transformar culpa ambiental em ativo político. Paga a conta, brilha no palco e segue perfurando o solo - tudo em nome da sustentabilidade.

Papo Reto

Uma série de invasões na área central da Ilha de Mosqueiro, Distrito de Belém, tem tirado o sossego de proprietários de imóveis e dos próprios moradores. Três deles, para evitar embates com os invasores, recorreram à Polícia Civil.

•Qual não foi a surpresa? Do policial que os atendeu, os moradores ouviram que toda e qualquer providência relacionada a invasões só poderá ser adotada depois da COP30.

A Polícia alega que cumpre “ordens superiores”, o que remete, no mínimo, ao delegado-geral, Raimundo Benassuly (foto), que ainda não se manifestou.

•A superintendência do Iphan no Pará também resolveu suspender o atendimento presencial até 21 de novembro, em virtude da COP30. 

Durante este período, as atividades de fiscalização estarão interrompidas e o trabalho das equipes será realizado em regime de teletrabalho.

•Os atendimentos e demandas deverão ser encaminhados pelos canais eletrônicos oficiais. Ainda bem que o Iphan não faz tanta falta quanto pensa. 

Sancionado pelo presidente Lula, o Sistema Nacional de Educação cria uma estrutura permanente de cooperação entre União, Estados e municípios. É inspirado no modelo do SUS. 

•Renan Calheiros decidiu manter o texto original da Câmara que amplia a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, evitando mudanças que atrasariam a tramitação. 

Comissão de Assuntos Econômicos do Senado vota hoje projeto que eleva tributos sobre fintechs e apostas esportivas para compensar a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil.

•Os senadores Soraya Thronicke e Angelo Coronel divergiram em comissão sobre a tributação das apostas esportivas. Soraya defendeu a carga atual e comparou o setor ao de cigarros, enquanto Coronel afirmou que a taxação supera 60%. 

Confirmando as projeções que o colocavam na dianteira, o democrata Zohran Mamdani foi eleito prefeito de Nova York. 

•Sua vitória, porém, contraria o estereótipo do "candidato favorito": aos 34 anos, autodeclarado socialista, muçulmano e imigrante africano, Mamdani chega ao comando da maior cidade dos Estados Unidos com uma biografia que, no papel, parecia tudo menos eleitoralmente óbvia.

Com informações do Congresso em Foco.

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.