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Depois de magro

Mitos e verdade sobre as possibilidades de desmame das canetas emagrecedoras

Não é simples interromper o uso das injeções emagrecedoras - é preciso orientação e cuidado com o reganho de peso

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  • Da Redação | Com O Globo
  • 31/03/26 16:00
Mitos e verdade sobre as possibilidades de desmame das canetas emagrecedoras

São Paulo, SP - As canetas emagrecedoras controlam, mas não curam a obesidade. Por isso, muitas dúvidas giram em torno da continuidade do tratamento, do reganho de peso e do efeito sanfona - associado a ganho progressivo.


Muitos interrompem o uso de semaglutida ou tirzepatida por custo, efeitos colaterais, incômodo do uso contínuo ou falta de acesso.


Os impactos das idas e vindas e do uso prolongado ainda são incertos. Por serem medicamentos novos, faltam dados de longo prazo - embora médicos já consigam bons resultados na manutenção do peso.


Uso para toda a vida?


Os estudos indicam que as canetas são de uso contínuo - assim como a obesidade é uma doença crônica. Ao interromper, o peso tende a voltar. Ainda assim, médicos consideram que o tratamento vale a pena para quem tem obesidade ou sobrepeso com comorbidades.


Elas reduzem a fome, aumentam a saciedade e retardam o esvaziamento gástrico, diminuindo a ingestão calórica. Também atenuam o “ruído alimentar”, aquela sensação constante de pensar em comida.


Sem o medicamento, esses efeitos cessam e a fome retorna. A manutenção do peso passa a depender sobretudo de dieta e exercício. O tempo de persistência dos efeitos varia entre indivíduos, mas mudanças no estilo de vida são o principal fator.


As consequências do uso prolongado ou intermitente ainda não são totalmente conhecidas. Em alguns casos, é possível fazer retirada gradual.


“O uso prolongado depende das necessidades do paciente. São drogas contínuas, assim como a obesidade é uma doença crônica e recidivante”, afirma o endocrinologista João Salles, diretor do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes e secretário-geral da Federação Latino-Americana de Obesidade.


Se parar, engorda de novo?


Não necessariamente - mas boa parte do peso perdido volta. A análise mais recente sobre a interrupção, publicada na Lancet, reuniu 48 estudos com mais de 3 mil adultos e indica que cerca de 60% do peso perdido retorna em um ano. Depois, o reganho desacelera e se estabiliza perto de 75%. Quem perdeu 20 kg, por exemplo, tende a recuperar 15 kg e manter 5 kg de perda.


Isso aponta para um benefício residual, menor do que durante o uso - possivelmente ligado a efeitos no cérebro ou no metabolismo. O estudo, porém, descreve médias e não estima quantos indivíduos voltam a engordar.


Há também sinais mais positivos. Uma análise com 7.938 adultos, da Clínica Cleveland (Diabetes, Obesity and Metabolism), mostrou que 45% mantiveram o peso após um ano. Em média, interromper semaglutida ou tirzepatida não levou a reganho significativo.


Os melhores resultados ocorreram entre quem manteve dieta e exercício e/ou adotou outros tratamentos. Por ser um estudo de “mundo real”, sem ambiente controlado, ele apresentou resultados melhores do que ensaios clínicos, que indicam recuperação de mais da metade do peso em 12 meses.


Existe desmame eficiente?


Se fosse fácil comer pouco, as canetas não seriam necessárias. Além de reduzir o apetite, elas tornam o metabolismo mais eficiente. Segundo João Salles, em alguns casos é possível retirar o medicamento de forma gradual, com acompanhamento médico, dieta e atividade física -, às vezes com ajuste de dose ou troca de fármaco.


Manter o peso exige mudança permanente de estilo de vida. Pela dificuldade de sustentar a dieta sem o remédio, muitos pacientes acabam precisando de uso contínuo.


“Quem começa provavelmente terá de manter o tratamento. Uma minoria consegue suspender, mas não é para todos”, observa Lício Velloso, especialista em obesidade da Unicamp e membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Bruno Gualano, coordenador do Centro de Medicina do Estilo de Vida da USP, diz que a maioria das pessoas que começa a usar as canetas têm a expectativa de parar um dia.

“Caneta não é elixir de magreza. No momento, não há garantia de que o indivíduo não precisará ficar com o remédio e a academia pela vida toda. É fundamental a manutenção da dieta e da atividade física, e não são volumes pequenos de exercício. Quando se para, é muito difícil não engordar”, frisa Gualano.


Quais benefícios cessam?


Interromper medicamentos GLP-1 (como semaglutida e tirzepatida) pode rapidamente reduzir seus benefícios cardiovasculares, segundo estudo da Universidade de Washington publicado na BMJ Medicine. Até pausas curtas já diminuem a proteção contra infarto, AVC e morte.


A pesquisa acompanhou 333.687 veteranos dos EUA com diabetes tipo 2 por três anos. Em comparação ao uso contínuo, parar por seis meses já se associou a aumento relevante de eventos cardiovasculares. Quanto maior a interrupção, maior o risco - chegando a até 22% após dois anos sem o medicamento, anulando grande parte dos ganhos obtidos no tratamento.


Quando se para de usar as canetas, não é só o peso que volta. Há um ressurgimento na inflamação, pressão arterial e colesterolO reganho de peso é visível; mas a reversão metabólica não é, disseram os cientistas na BMJ Medicine. “Nossos dados sugerem que esse chicote metabólico é prejudicial à saúde cardíaca. Reiniciar o medicamento ajudou a restaurar alguma proteção, mas apenas parcialmente, mostrando que a descontinuação deixa uma cicatriz duradoura”, diz o estudo.

Apenas um ano fora da droga foi mais que suficiente para os participantes do estudo perderem benefícios cultivados ao longo de anos de tratamento contínuo. Uma vez perdidos, esses ganhos não foram totalmente restaurados pela retomada do tratamento.


Efeito perverso do io-iô


Há consenso entre especialistas de que o uso ioiô (cíclico) aumenta a tendência ao ganho de peso - e não é exclusivo das canetas. Interromper e retomar o tratamento, como em dietas, desregula o metabolismo: a cada ciclo, fica mais fácil engordar e mais difícil emagrecer.


Por isso, usar por um período e retomar depois “se necessário” não é recomendado. O efeito pode, inclusive, levar quem está no peso normal ou com leve sobrepeso a ganhar peso.


A explicação é fisiológica: o corpo tende a economizar energia. Ao comer menos, o metabolismo desacelera para enfrentar uma suposta escassez. Sem a caneta, a fome volta, mas o gasto energético permanece mais baixo, favorecendo o acúmulo de gordura. Com ciclos repetidos, esse processo se intensifica.


Além disso, no emagrecimento perde-se gordura e massa muscular; no reganho, predomina a gordura. O resultado é um corpo progressivamente mais pesado e com menos músculo.


“O reganho costuma ser proporcional à perda: quem perde mais tende a recuperar mais. O efeito ioiô é nocivo e subestimado”, afirma Clayton Macedo, Clayton Macedo, coordenador do Ambulatório de Endocrinologia do Exercício da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.


Foto: Freepik

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.