Violência, crime organizado e sensação de abandono empurram o tema para o centro do debate eleitoral.
Tema que começa a ganhar dimensão transversal e potencial decisivo, segurança pública sinaliza ocupar palanques até dia da eleição/Fotos: Divulgação.
ntes de a disputa presidencial de 2026 ganhar oficialmente as ruas, uma pergunta começa a atravessar pesquisas, conversas políticas e a própria percepção social do brasileiro: afinal, o que o eleitor ainda espera das urnas?
Depois de anos consumido pela polarização entre lulismo e bolsonarismo, o País chega novamente ao período pré-eleitoral mergulhado num ambiente de desgaste institucional, radicalização política e crescente sensação de esgotamento coletivo. O debate público segue dominado pela guerra ideológica, enquanto problemas concretos se acumulam sem respostas proporcionais do Estado. Entre eles, um tema começa a ganhar dimensão transversal e potencial decisivo: a segurança pública.
A violência urbana, o avanço das facções criminosas, a interiorização do narcotráfico, os ataques ao patrimônio público, os roubos digitais, a corrupção e o sentimento generalizado de insegurança recolocaram o tema no centro das preocupações nacionais. Não se trata apenas de estatística criminal. O que cresce é a percepção de perda de controle.
Nos grandes centros e também nas cidades médias, a população passou a conviver com uma criminalidade mais organizada, mais armada e economicamente mais sofisticada. Facções deixaram de disputar apenas territórios periféricos e avançaram sobre setores estratégicos da economia informal e ilegal, como garimpo, combustíveis, apostas online, internet clandestina e transporte alternativo.
Na Amazônia, o fenômeno ganhou contornos ainda mais complexos. Estados como Pará, Amazonas e Amapá convivem hoje com rotas internacionais do narcotráfico, expansão de organizações criminosas, conflitos fundiários armados e aumento da violência em áreas urbanas e rurais. Em muitos municípios, o poder paralelo já interfere diretamente na dinâmica econômica e social. Enquanto isso, o debate político nacional permanece preso à lógica da polarização permanente.
O governo Lula chega à reta final do mandato ainda sem conseguir cumprir uma promessa frequentemente mencionada após a eleição de 2022: a pacificação institucional do País. Ao contrário, episódios sucessivos de tensão política, disputas entre Poderes, escândalos administrativos e conflitos ideológicos mantiveram o ambiente nacional em permanente estado de confronto.
A percepção de parte significativa do eleitorado é de que Brasília continuou mais preocupada consigo mesma do que com problemas cotidianos da população.
Escândalos envolvendo uso de recursos públicos, disputas por emendas parlamentares, denúncias de corrupção e a relação cada vez mais conflituosa entre Congresso, Supremo Tribunal Federal e setores políticos alimentaram um sentimento difuso de desgaste institucional.
Nesse ambiente, cresce o espaço para uma agenda menos ideológica e mais ligada à sensação prática de sobrevivência social.
Pesquisas recentes de institutos nacionais já apontam segurança pública entre os principais temas de preocupação do eleitor, ao lado da inflação, saúde e custo de vida. A diferença é que segurança produz um impacto emocional imediato: altera rotina, muda comportamento urbano e amplia a sensação de vulnerabilidade.
Especialistas avaliam que 2026 pode marcar a consolidação de uma mudança importante no debate eleitoral brasileiro. Depois de anos em que corrupção e costumes dominaram o centro da disputa política, o eleitor tende agora a cobrar capacidade concreta de gestão do caos urbano e do avanço do crime organizado.
O desafio, porém, é que o tema costuma ser tratado eleitoralmente de forma superficial. Historicamente, campanhas presidenciais recorrem a discursos genéricos de endurecimento penal ou aumento de efetivo policial, enquanto especialistas defendem medidas mais complexas, envolvendo inteligência financeira, integração federativa, controle de fronteiras, sistema prisional e cooperação internacional.
No Pará, o assunto também começa a ganhar peso político. A disputa estadual de 2026 tende a incorporar o debate sobre violência urbana, facções e domínio territorial em áreas periféricas e municípios do interior. A expansão do crime organizado na Amazônia já deixou de ser apenas questão policial e passou a influenciar economia, política e gestão pública.
A eleição pode revelar um eleitor menos interessado na guerra permanente entre grupos políticos e mais preocupado com questões básicas: sair de casa sem medo, preservar renda, proteger patrimônio e recuperar alguma estabilidade institucional.
Depois de anos de radicalização, talvez a pergunta central de 2026 não seja mais “quem venceu a polarização”, mas quem conseguirá convencer o brasileiro de que o Estado ainda é capaz de manter alguma ordem.
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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