Brasil tenta fechar a conta da COP30, que terminou com decisões em aberto Nove em cada dez vítimas no Brasil não tinham medida protetiva garantida Política de carbono deixa agropecuária fora, mas setor é o que mais emite gases
MULHERES SOB ATAQUE

Nove em cada dez vítimas no Brasil não tinham medida protetiva garantida

Estudo da Rede de Observatórios da Segurança mostra que, no Pará, mortes de mulheres aumentaram 76% entre 2024 e 2025.

  • 128 Visualizações
  • Da Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 07/03/26 08:22
Nove em cada dez vítimas no Brasil não tinham medida protetiva garantida
O


Brasil chega aos 20 anos da Lei Maria da Penha com um paradoxo a enfrentar: enquanto o índice de mortes violentas está em queda, os feminicídios crescem a níveis recordes. Em 2025, o País registrou 1.568 casos de feminicídio, o maior número da série histórica, aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. Considerados os últimos cinco anos, o salto é ainda maior, de 14,5%.

 

Números alarmantes incluem o caso das quebradeiras de coco babaçu Antônia Ferreira, 53, e Marly Barroso, de 71, no Pará/Fotos: Divulgação.

Só 13,1% das vítimas contavam com uma medida protetiva de urgência concedida pela Justiça quando foram mortas. Significa que quase nove em cada dez mulheres não tinham a ordem judicial baseada na Lei Maria da Penha, que visa garantir a integridade física e psicológica das vítimas, em caráter urgente.

Pará lidera no Norte

Os crimes de violência contra as mulheres cresceram 76% no Estado entre 2024 e 2025. O aumento foi o maior entre os nove Estados monitorados pela Rede de Observatórios da Segurança. Os crimes, que vão de estupros, feminicídio a ameaças, entre outros, saltaram de 388 para 683 em um ano. O dado é revelado no novo boletim Elas Vivem: a urgência da vida, divulgado no início de março.

Ao todo, o Pará contabilizou 138 mortes de mulheres entre feminicídio, homicídio e transfeminicídio. O Pará também teve alta de 167,4% nos casos de violência sexual como o estupro, sendo que 62,8% das vítimas tinham entre 0 e 17 anos. Os dados são produzidos a partir de um monitoramento diário do que circula nas mídias sobre violência e segurança. 

“Retrato no Brasil”

Os dados estão na pesquisa 'Retrato dos Feminicídios no Brasil', um levantamento inédito do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, lançado esta semana. De acordo com o Conselho Nacional de Justiça, 621 mil medidas protetivas de urgência foram concedidas no ano passado, o correspondente a 90% das solicitadas. O relatório será apresentado em encontro com representantes do governo federal, em Brasília.

Pela legislação brasileira, o feminicídio ocorre quando uma mulher é assassinada no contexto de violência doméstica e familiar ou em razão do menosprezo ou discriminação à condição de mulher. No Brasil, uma lei de março de 2015 alterou o Código Penal Brasileiro e incluiu o feminicídio como uma das formas qualificadas de homicídio. Em 2024, outra mudança legislativa transformou o feminicídio em um crime autônomo.

Caminho longo e difícil

Embora não haja respostas definitivas, os pesquisadores têm pistas das causas da baixa concessão de medidas protetivas, o que chamam de "rota crítica". O problema, diz o estudo, é anterior aos tribunais. Até chegar à ordem de restrição, a mulher em situação de violência percorre um longo caminho, que envolve desde a coragem para quebrar o silêncio e denunciar o agressor até encontrar a efetiva proteção institucional.

Uma série de fatores podem impulsionar o pedido de ajuda, como a preocupação em proteger os filhos, a escalada da violência ou o apoio de amigos e familiares. Mas há também os inibidores, como a dependência econômica, vergonha, má resposta institucional e isolamento social, segundo a pesquisa do Fórum. Além disso, não basta que os serviços de proteção estejam disponíveis. É preciso que sejam acessíveis, de qualidade e capazes de produzir respostas consistentes.

Uma vez que a medida é concedida, há ainda um longo caminho pela frente. O agressor precisa ser notificado sobre a decisão judicial. E também as forças de segurança, que serão responsáveis pelo cumprimento e fiscalização.

Desproporção de dados

O mapeamento do Fórum revela que o risco de morte para as brasileiras é inversamente proporcional ao tamanho da cidade onde vivem. Ou seja: quanto menor o município, maior a incidência de casos de feminicídio.

Municípios com até 100 mil habitantes concentram 50% de todos os feminicídios do País, embora abriguem apenas 41% da população feminina. Nessas localidades, a taxa de mortalidade chega a 1,7 por 100 mil mulheres, índice superior ao registrado em cidades médias (1,2) e nas grandes metrópoles (1,1).

Esse foi o caso dos feminicídios das quebradeiras de coco babaçu Antônia Ferreira dos Santos, de 53 anos, e Marly Viana Barroso, de 71 anos. As duas foram assassinadas em 3 de novembro de 2025, no município de Novo Repartimento, cidade do sudeste paraense com 63 mil habitantes. Os corpos apresentavam marcas de extrema violência e crueldade.  

O caso também é apresentado como um exemplo da vulnerabilidade das populações extrativistas e da impunidade que muitas vezes envolve ataques contra mulheres que ocupam papéis de liderança ou independência econômica na região. O crime causou clamor entre movimentos sociais e de mulheres presentes na COP30. O assassino, identificado como Danilo Silva, confessou o crime e foi preso.

Estrutura para poucos

Essa vulnerabilidade nas cidades menores é agravada pelo deserto de serviços especializados. Enquanto 98% dos grandes municípios possuem Delegacias de Defesa da Mulher, onde as denúncias contra os agressores em geral são feitas, apenas 5% dos pequenos contam com esse serviço. Sem essa infraestrutura básica, a trajetória da mulher em busca de ajuda é interrompida por barreiras territoriais, falta de sigilo e pressões comunitárias mais conservadoras.

O levantamento atualiza o perfil das vítimas de feminicídio. Mulheres negras (62,6%), com idade entre 30 e 49 anos (50%), são a grande maioria. O crime não é aleatório. Em 80,7% dos casos, o assassino é o parceiro ou ex-parceiro íntimo. A violência, em 97,3% dos crimes, é praticada por homens.

Segundo o Fórum, o local mais perigoso para as mulheres é a própria residência, cenário de 66,3% das mortes. O instrumento mais utilizado é a arma branca (48,7%), como facas e machados presentes no cotidiano doméstico, seguida pela arma de fogo (25,2%).


Papo Reto

O meia-atacante Jesse Lingard (foto) foi anunciado como reforço do Corinthians nesta sexta-feira, 6, com a divulgação de um vídeo institucional intitulado ‘Do Reino à Favela’, em referência à nacionalidade do jogador e à identificação popular do clube.

•Revelado pelo Manchester United, o britânico de 33 anos chega ao time paulista com status de estrela europeia, mas longe de ter a mesma pompa de Memphis Depay, maior astro do elenco corintiano.

A EMS e a Sanofi, dois dos maiores conglomerados farmacêuticos do País, se uniram para comprar 100% da Medley, uma das principais marcas de genéricos do Brasil.

•O acordo abre um novo capítulo no mercado brasileiro de genéricos, com a possibilidade do aumento de oferta e o alcance ainda maior de pessoas de baixa renda no Brasil.

Sob a coordenação da Prefeitura de Belém, o Re x Pa deste domingo, 8, será marcado por uma série de ações que têm por objetivo mobilizar as duas torcidas contra o feminicídio e a violência contra a mulher.

•O Ministério Público Federal anunciou que determinou a instauração de um inquérito civil para investigar “possíveis práticas de tortura e tratamentos desumanos ou degradantes” no reality show Big Brother Brasil 26.

O órgão se manifestou, especialmente, sobre a dinâmica chamada “Quarto Branco”, onde participantes permaneceram confinados durante um longo período de tempo.

•A metodologia do quadro “guarda semelhança com práticas de tortura empregadas durante a ditadura civil-militar brasileira”, ressaltou a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, em carta enviada ao MPF.

Mais matérias OLAVO DUTRA

img
Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.