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ELEIÇÕES 2026

Fotografia das urnas começa antes da urna; quem contrata, quem pergunta e paga

Se é verdade que pesquisa eleitoral é um retrato do momento, convém procurar saber quem aperta o botão da máquina.

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  • Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 28/08/26 09:00
Fotografia das urnas começa antes da urna; quem contrata, quem pergunta e paga
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esquisa eleitoral virou uma espécie de oráculo da política brasileira. Publicado o percentual, candidatos comemoram, adversários contestam e o eleitor começa a fazer contas. Mas há uma etapa anterior à divulgação que costuma receber bem menos atenção: como aquela fotografia foi produzida?

 

Quaest publicou segunda-feira, em Macapá, o resultado da primeira de uma série de pesquisas na região; amanhã saí a do Pará/Fotos: Divulgação.

A pergunta ganhou atualidade no Norte do País depois da primeira pesquisa Quaest sobre a eleição para o governo do Amapá. Divulgado na terça-feira, o levantamento colocou o ex-prefeito Antônio Furlan, do PSD, com 55% das intenções de voto, contra 35% do governador Clécio Luís, do União Brasil. Foram 804 entrevistas presenciais, realizadas entre 21 e 24 de agosto, em nove municípios. O levantamento foi registrado no TSE sob o número AP-09438/2026. O resultado, por si só, é apenas um resultado. O que merece atenção é o contexto.

Rodada nacional

A pesquisa do Amapá faz parte de uma rodada muito maior da Quaest para os governos estaduais. O instituto programou levantamentos em 24 Estados e no Distrito Federal, com divulgação distribuída ao longo da semana. A lista inclui Estados como São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Amazonas, Mato Grosso, Paraná e Bahia. O Pará ficou para o sábado, 29 de agosto, sob os registros PA-07718/2026 e BR-05309/2026. Ou seja: o Pará já está sendo fotografado - e aqui começa a parte que interessa.

Uma pesquisa eleitoral não é apenas o número estampado no gráfico. Existe o contratante, existe o período de campo, existe o tamanho da amostra, existem os municípios escolhidos, existe a forma de abordagem do entrevistado, existe o questionário e existe a data em que tudo isso foi realizado. Tudo importa.

Estudos no Pará

Até porque o eleitor paraense já recebeu fotografias diferentes da mesma disputa. Em abril, levantamento Genial/Quaest mostrava Daniel Santos numericamente à frente de Hana Ghassan. No cenário divulgado naquele momento, Daniel aparecia com 22% e Hana com 19%; em outro cenário, os dois apareciam tecnicamente empatados.

Três meses depois, a fotografia havia mudado. A pesquisa Genial/Quaest divulgada em julho mostrou Hana crescer e assumir a liderança, enquanto Daniel passou a aparecer atrás. E, em 20 de agosto, outra lente entrou em cena. A AtlasIntel apontou Hana com 48,6% e Daniel com 40,5% em determinado cenário de primeiro turno. O levantamento ouviu 1.197 eleitores paraenses entre 14 e 19 de agosto.

Três fotografias. Momentos diferentes. Institutos diferentes. Metodologias diferentes. É exatamente aí que mora a informação. Não há razão jornalística para transformar diferenças metodológicas em suspeita. Ao contrário: é justamente porque pesquisas são instrumentos científicos que suas condições de produção precisam ser conhecidas pelo público. 

Contratos da Globo

No caso da nova rodada da Quaest, há ainda um dado que merece ser observado com atenção: os levantamentos estaduais foram feitos praticamente ao mesmo tempo e, segundo a programação divulgada, são contratados pela Globo ou por suas afiliadas nos Estados. Em São Paulo, por exemplo, o levantamento foi contratado pela Globo Comunicação e Participações; no Amapá, a divulgação ocorreu pela Rede Amazônica.

Isso não significa que haja qualquer irregularidade. Significa apenas que o contratante faz parte da ficha técnica da pesquisa, assim como a margem de erro e o período de campo. E informação pública não deve ser escondida na letra miúda.

Há outro detalhe que, no Pará, merece acompanhamento especial: a nova pesquisa tem divulgação marcada para 29 de agosto, mas o período de entrevistas ocorre antes disso. Portanto, quando o número chegar às manchetes, o eleitor deverá lembrar que a fotografia foi produzida em dias determinados - e que a campanha continua se movendo depois que o último entrevistado responde ao questionário.

É a velha diferença entre fotografia e filme. A fotografia congela um instante; a eleição é um filme.

Por isso, mais importante do que perguntar apenas “quem está na frente?” é perguntar: quem foi ouvido, onde foi ouvido, quando foi ouvido, quem contratou e qual era o cenário político naquele momento?

No Amapá, a Quaest encontrou uma vantagem de 20 pontos para Furlan. Outros levantamentos já haviam produzido cenários diferentes para aquela disputa, mostrando que a leitura de uma eleição não pode depender de uma única fotografia. No Pará, o exercício será ainda mais interessante.

Papo Reto

O bafafá provocado pela pesquisa Quaest no Amapá não está apenas nos números - Rayssa Furlan na frente, Lucas Barreto e Randolfe Rodrigues na briga pela segunda vaga. 

•Está também na discussão sobre as relações entre quem mede o humor do eleitorado e quem faz política. Relações, registre-se, não são prova de nada, mas, em política, proximidade sempre desperta perguntas. E pergunta, como se sabe, não é acusação.

O caso do Amapá ganhou repercussão justamente porque pesquisa eleitoral exige confiança, método e distância suficiente para que ninguém precise perguntar se há algo além da estatística. O resto é silêncio. Ou melhor: fica por conta do leitor. 

•O Ranking de Competitividade dos Municípios, elaborado pelo Centro de Liderança Pública em parceria com a Gove Digital, não mente.

Enquanto Vitória/ES comemora o topo e Palmas estreia no seleto grupo dos 15, Belém amarga mais uma vez a lanterna, a 65ª colocação.

•Não se trata de falta de potencial; "é falta de gestão mesmo", comenta um especialista, já que competitividade não brota do asfalto, nasce de planejamento, mas Belém parece achar que tratar bem o turista na COP resolve tudo.

Enquanto a OEA se mobiliza, o Brasil vota sozinho contra - porque, claro, nada mais urgente que passar pano para ditador que cancela eleição por "clima". Itamaraty, sempre sensível: deve achar que "clima" é o de Brasília, onde a democracia já opera em regime de intermitência.

•O Brasil vai se notabilizando por se transformar em advogado de tiranos de aluguel. Coerência é coisa do passado; o presente é ser o amigo de todas as ditaduras. Isolado, mas com estilo.

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.