MP cobra explicações da Elea sobre empreendimento que pode consumir energia equivalente à de 410 mil residências.
relógio está correndo para a Elea Data Centers. Termina no domingo, 6 de setembro, o prazo dado pelo Ministério Público do Pará (MP) para que a empresa explique como pretende implantar em Belém o BEL1, empreendimento anunciado como o primeiro data center voltado à Inteligência Artificial da Amazônia, sem que exista, até o momento, pedido formal de licenciamento ambiental em análise nos órgãos ambientais consultados pelo próprio Ministério Público.

O empreendimento está previsto para começar a operar no
segundo trimestre de 2027 e receberá investimento inicial de R$ 250 milhões. A
primeira etapa terá capacidade de 7,5 MW, mas o projeto poderá ser ampliado até
100 MW - consumo de energia equivalente, segundo estimativa apresentada no
caso, ao de aproximadamente 410 mil residências paraenses. É aí que a história
deixa de ser apenas tecnológica e passa a ser ambiental, urbana e política.
O MP instaurou novo inquérito civil para investigar o
projeto. A apuração está sob responsabilidade do promotor Márcio Maués, da área
de Meio Ambiente, Defesa Comunitária e Cidadania, em Barcarena.
Entre as preocupações estão justamente os impactos que ainda
precisam ser dimensionados: consumo de energia, eventual demanda por água,
aumento da temperatura, poluição sonora e efeitos sobre as comunidades
próximas.
O empreendimento poderá ser instalado na área de Miramar, no
bairro do Barreiro, onde funcionava a antiga usina termoelétrica de Miramar, na
avenida Arthur Bernardes. O terreno pertence à Axia Energia, apontada como
parceira estratégica da Elea. E aqui aparece o primeiro ponto que o MP quer
esclarecer.
Ao ser consultada
pelo Ministério Público, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Belém
informou que não existe atualmente procedimento administrativo para o
licenciamento do BEL1. Mais do que isso: a Semma afirmou não haver processo de
licenciamento, estudos técnicos ou documentos correlatos em análise, nem
registros de consultas ou audiências públicas relacionados ao empreendimento.
A Secretaria de Meio
Ambiente do Pará também informou não haver processo aberto sobre o projeto e
atribuiu a competência para análise ao município. Em resumo: há projeto,
investimento anunciado, área definida, parceiro energético, previsão de
operação e capacidade projetada - mas, segundo os órgãos ambientais consultados
pelo MPPA, não há processo de licenciamento em andamento. É justamente essa
equação que o Ministério Público quer entender.
A Elea apresenta o BEL1 como uma estrutura de alta eficiência ambiental. A empresa afirma que a Axia fornecerá energia 100% renovável e que o sistema de refrigeração por expansão direta, conhecido como DX, não utiliza água. Mas a sustentabilidade anunciada pela empresa não encerra a discussão.
Um data center com
capacidade potencial de 100 MW significa uma estrutura de enorme demanda
energética instalada em uma área urbana densamente ocupada. E o próprio MP
chama atenção para outro risco: a formação de “ilhas de calor” em uma cidade
que já enfrenta temperaturas elevadas.
Também estão no radar
o ruído produzido pelos equipamentos, a luminosidade, a infraestrutura
necessária para operação e os possíveis efeitos sobre a população dos bairros
próximos.
Miramar, Barreiro,
Sacramenta e Pratinha estão entre as áreas apontadas pelo MP como próximas ao
local do empreendimento. Segundo o inquérito, não houve consulta pública aos
moradores dessas comunidades.
O caso paraense acontece em meio a uma corrida internacional
para atrair grandes estruturas de processamento de dados destinadas à
Inteligência Artificial. A conta, entretanto, não é apenas tecnológica. Data
centers exigem enormes quantidades de energia, infraestrutura de transmissão,
sistemas de refrigeração e áreas adequadas para operação contínua.
No Brasil, a discussão chegou ao Senado. Em audiência
realizada pela Comissão de Ciência e Tecnologia no início de agosto,
especialistas discutiram justamente os impactos socioambientais dessas
estruturas e defenderam regras capazes de proteger populações, comunidades
tradicionais e a própria economia local.
A discussão também
alcança o governo federal. Durante a formulação das primeiras propostas do
Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, o Redata, o
Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima ficou inicialmente fora das
discussões centrais.
A explicação para a
pressa é conhecida: o Brasil tenta aproveitar uma janela de oportunidade aberta
pela expansão mundial da Inteligência Artificial e pela necessidade de grandes
empresas de tecnologia encontrarem novos mercados com disponibilidade de energia.
O problema é quando a velocidade da corrida começa a
ultrapassar a capacidade de planejamento. A conta que vem junto com o
investimento
Entidades do setor de tecnologia e estudos ligados a órgãos
governamentais defendem maior flexibilização do licenciamento para data
centers, sob o argumento de que são estruturas sem emissão direta de poluentes
atmosféricos e, portanto, diferentes de indústrias tradicionais. Mas essa
definição não elimina os impactos.
Uma instalação capaz de chegar a 100 MW pode não produzir
fumaça, mas consome energia em escala industrial, exige infraestrutura
permanente e altera a dinâmica urbana do território onde se instala.
No caso do BEL1, o Ministério Público quer saber se essa
conta foi devidamente calculada antes da obra avançar.
E há uma pergunta que paira sobre o empreendimento: como um
projeto anunciado para entrar em operação em 2027, com investimento inicial de
R$ 250 milhões e expansão prevista até 100 MW, chegou tão longe sem que os
órgãos ambientais tenham sequer um processo de licenciamento em análise? A
resposta agora está nas mãos da Elea.
O prazo termina domingo. E, desta vez, não será a
Inteligência Artificial que terá de responder.
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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