O Brasil conhece, com precisão, o tamanho da floresta que desmatou, a safra que colheu e a inflação do mês, mas permanece sem a resposta que deveria inquietar qualquer governo: quanto do território nacional está sob o domínio das organizações criminosas?
ão existe um levantamento oficial que responda a essa questão. E a ausência desse dado talvez seja, por si só, um dos retratos mais eloquentes da crise na segurança pública. O Estado brasileiro combate organizações criminosas sem conseguir dimensionar, de forma sistemática, o espaço físico onde elas exercem poder, impõem regras e desafiam a autoridade pública. Os indicadores disponíveis, no entanto, desenham um cenário preocupante.

Estudo aponta que entre 50,6 milhões e 61,6 milhões de brasileiros vivem em áreas classificadas como de "governança criminal", onde facções exercem influência cotidiana sobre a vida da população. Outra pesquisa revela que 41% dos brasileiros com mais de 16 anos reconhecem a presença de grupos criminosos organizados no bairro onde vivem. Na Amazônia Legal, o quadro torna-se ainda mais sensível: 344 dos 772 municípios - 44,6% do total - registram atuação de facções criminosas.
Esses números ajudam a compreender o fenômeno, mas não respondem à pergunta essencial: onde, exatamente, o Estado perdeu terreno? Essa lacuna tem consequências práticas. Sem um diagnóstico territorial consolidado, torna-se difícil estabelecer prioridades, avaliar resultados e medir se as operações policiais recuperam áreas dominadas ou apenas deslocam organizações criminosas de um ponto para outro. O combate ao crime passa a ser medido pelo volume de prisões e apreensões, quando talvez o indicador mais importante seja outro: a capacidade do poder público de restabelecer sua presença permanente em áreas antes controladas por grupos criminosos.
No Pará, a discussão ganha contornos ainda mais relevantes. O Estado ocupa posição estratégica na Amazônia, com extensa malha hidrográfica, grandes corredores logísticos, portos de relevância nacional e intensa circulação de mercadorias. Nesse contexto, especialistas vêm alertando que rios, estradas, garimpos e áreas de fronteira passaram a integrar a dinâmica de expansão das organizações criminosas.
Isso conduz a uma série de perguntas que ainda carecem de respostas públicas: quantos municípios paraenses convivem hoje com presença permanente de facções? Quais regiões concentram maior influência desses grupos? O governo estadual mantém um mapeamento atualizado dessa realidade?
Até o momento, não há um sistema público capaz de responder a essas questões com precisão. O debate sobre segurança pública, portanto, pode estar sendo conduzido a partir de indicadores incompletos. Afinal, nenhuma estratégia de recuperação territorial parece plenamente eficaz quando o próprio território em disputa permanece indefinido.
A questão ultrapassa a esfera policial. Trata-se de planejamento de Estado. Enquanto o Brasil não souber, oficialmente, onde e em que extensão organizações criminosas exercem influência sobre comunidades, rotas econômicas e espaços estratégicos, continuará enfrentando um adversário cujo mapa permanece invisível.
Talvez a pergunta mais importante já não seja quantas facções existem no País. A pergunta é outra: quanto do Brasil elas já ocupam - e por que o Estado ainda não consegue dizer isso com clareza?

• Depois de dias de suspense e de uma guerra silenciosa entre aliados, o MDB bateu o martelo e oficializou o deputado Dirceu Ten Caten (foto) como vice na chapa de Hana Ghassan.
•O comunicado oficial faz questão de atribuir a escolha ao presidente Lula, numa mensagem que mira muito além da convenção: tenta encerrar a disputa interna e deixar claro quem deu a palavra final.
•Em política, quando é preciso explicar demais uma decisão, quase sempre é porque houve muito mais negociação do que consenso.
•Tem candidato à reeleição para a Assembleia Legislativa que já começou a fazer contas - e perder o sono.
•A entrada de nomes com forte densidade eleitoral promete elevar a disputa por vagas e reduzir a margem de conforto de quem hoje ocupa uma cadeira na Casa.
•Três candidaturas chamam atenção nesse cenário. Paulo Jasper, o Macarrão, do MDB, ex-prefeito de Tailândia e ex-deputado estadual; Paola Abucater, do PSD, primeira-dama de Altamira; e Andréa Dantas, do MDB, esposa do deputado federal Antônio Doido.
• Macarrão chega à disputa com um eleitorado consolidado em Tailândia, mas seu raio de influência alcança praticamente todos os municípios ao longo da PA-150, de Moju a Marabá, onde mantém uma extensa rede de aliados.
•Paola Abucater parte de Altamira, mas sua força política se espalha pelos municípios da Transamazônica e da região do Xingu, formando um dos maiores colégios eleitorais do interior do Estado.
•Já Andréa Dantas terá como principal ativo a estrutura política construída por Antônio Doido. A dobradinha deve funcionar em praticamente todos os redutos do deputado federal, transformando a candidatura em mais um fator de preocupação para quem depende da reeleição.
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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