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Relatórios apontam que Vorcaro mirou OAB com dinheiro e Pará entrou no mapa

Mensagens analisadas pela PF mostram plano para financiar pré-candidatura e disputa nas seccionais; Pará aparece entre os Estados estratégicos.

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  • Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 30/09/26 12:00
Relatórios apontam que Vorcaro mirou OAB com dinheiro e Pará entrou no mapa
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Pará aparece no mapa de uma articulação que, segundo mensagens analisadas pela Polícia Federal, pretendia levar o banqueiro Daniel Vorcaro a financiar uma disputa pelo comando nacional da Ordem dos Advogados do Brasil.

Articulação alcançava disputas em cinco Estados e valores de R$ 100 mil, R$ 2 milhões por campanha e até R$ 10 milhões/Fotos: Divulgação.
 As conversas, trocadas no início de 2024 entre Vorcaro e Luiz Rennó, então diretor jurídico do Banco Master, mostram a construção de um projeto para apoiar a pré-candidatura do advogado Sérgio Leonardo à presidência da OAB. A estratégia previa dinheiro, aeronaves, viagens nacionais e internacionais e a montagem de uma rede de apoio nas seccionais - e o Pará estava nessa conta.

Segundo os diálogos, a articulação alcançava as disputas pelas presidências das OABs do Espírito Santo, Roraima, Piauí, Pará e Mato Grosso, além de uma tentativa de construir um nome no Maranhão. Os valores mencionados variavam de R$ 100 mil a R$ 2 milhões por campanha. A conta maior poderia chegar a R$ 10 milhões.

“Você não aparece”

A ideia, segundo as mensagens, era financiar a movimentação sem expor diretamente Vorcaro. Rennó teria proposto um contrato de prestação de serviços entre uma empresa do conglomerado Master e um escritório que seria aberto por ele. Em uma das mensagens, Rennó diz a Vorcaro que Sérgio Leonardo “precisa do financeiro e operacional” e acrescenta: “Vc não aparece”.

Vorcaro demonstrou interesse. Falou em disponibilizar um jato Hawker para a campanha e, diante da proposta de financiar a operação, respondeu: “Pode organizar”. O plano incluía ainda viagens para conquistar apoio das seccionais, contratação de pesquisas e publicidade nas redes sociais.

Em outro momento, Rennó teria informado que Leonardo já havia assumido compromissos financeiros em algumas disputas estaduais. A estimativa apresentada nas mensagens era de que a operação poderia consumir “dez pratas” - referência, segundo a apuração, a R$ 10 milhões. A lógica também era explícita: controlar as disputas estaduais para construir força suficiente para chegar ao comando nacional da entidade.

Sotaque paraense.

O Pará aparece nominalmente entre os cinco Estados que fariam parte da estratégia de construção da candidatura nacional. Os diálogos não significam que a articulação tenha efetivamente financiado uma candidatura no Pará. Também não há indicação de que dirigentes paraenses tenham participado do esquema. O que existe é a menção ao Estado dentro do planejamento atribuído a Rennó e Vorcaro.

A investigação descrita nas mensagens trata de uma tentativa de construir influência nacional a partir das eleições nas seccionais. A OAB tem prerrogativas institucionais relevantes, inclusive para propor ações diretas de inconstitucionalidade e participar da formação de listas destinadas a vagas na magistratura. Não era, portanto, uma eleição qualquer.

Avião, Brasília e Europa

A operação imaginada ia além do dinheiro. Rennó encaminhou a Vorcaro um planejamento de voos que incluía São Luís, Vitória, Maceió, Florianópolis, Fortaleza, Campinas, Uberaba, Juiz de Fora, Divinópolis e outras cidades. Havia ainda uma agenda internacional. As mensagens mencionam eventos em Madrid, Lisboa e Coimbra, além de um encontro promovido por Vorcaro em Londres, para o qual ele sugeriu a presença de Rennó e Sérgio Leonardo.

O objetivo declarado era fortalecer relações com lideranças da OAB e do Judiciário. A operação, contudo, começou a perder fôlego em maio de 2024. Vorcaro disse que havia se aprofundado no assunto e considerava impossível a vitória de Leonardo. Rennó insistiu que o apoio financeiro poderia virar o jogo. Vorcaro respondeu que a resistência viria de setores do STF e do STJ e afirmou que o aliado seria “defenestrado”. Meses depois, em fevereiro de 2025, Beto Simonetti foi reeleito presidente nacional da OAB com 100% dos votos.

A voz dos envolvidos

Luiz Rennó afirmou que houve interesse, mas que o projeto “não decolou”. Sérgio Leonardo disse que não tinha conhecimento da atuação de Vorcaro e Rennó para financiar sua pré-candidatura e negou ter usado dinheiro ou aeronaves do banqueiro para essa finalidade. Disse ainda que apoiou Simonetti e posteriormente foi nomeado procurador-geral da OAB.

A OAB afirmou não ter conhecimento do caso e declarou que a eleição ocorreu em cenário diferente, com “apoio massivo da advocacia nacional”. O material, portanto, registra uma articulação discutida em mensagens e analisada pela Polícia Federal. O alcance efetivo da iniciativa, inclusive no Pará, é outra questão - depende da apuração dos fatos e de eventual comprovação documental.

Mas uma coisa as mensagens deixam registrada: na tentativa de chegar ao comando da OAB, o Pará estava no mapa.

Papo Reto

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.