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"Óbolo de Caronte"

Projeto abandonado na periferia de Belém foi usado em compra de imóvel no Leblon

Programa de combate a alagamentos em Belém apresentado como prioridade da COP teria servido a propinas milionárias e enriquecimento ilícito.

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  • Da Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 26/10/25 08:00
Projeto abandonado na periferia de Belém foi usado em compra de imóvel no Leblon
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aulinho da Viola dizia que “dinheiro na mão é vendaval”. Em Belém, a Secretaria de Saneamento da gestão Edmilson Rodrigues mostrou que mochilas de R$ 150 milhões têm o poder de um furacão - ou até de um vulcão -, destruindo promessas e obras antes mesmo de completá-las. Nota do redator - para não deixar passar em branco: em Marituba, a então secretária de Educação Bárbara Marques optou por receber propina em uma sacola da Arezzo.

Presentes de luxo identificados pela PL incluíram carro de R$ 356 mil, um apartamento de R$ 729 mil e outros repasses de cerca de R$ 500 mil/Fotos: Divulgação.
 Voltando à capital da COP30, o que deveria ser um programa de drenagem urbana para quatro bairros periféricos, beneficiando 130 mil pessoas, transformou-se em roteiro de luxo e propinas. Carros de alto padrão, apartamentos no Leblon e entradas de imóveis em Belém se tornaram símbolos de um vendaval que passou sobre a população, deixando enchentes e abandono no rastro.

Prioridade é escândalo

O Programa de Macrodrenagem da Bacia Hidrográfica do Mata Fome, anunciado em 2024 como prioritário para a COP30, acabou paralisado. Segundo relatório da Polícia Federal, a iniciativa de grande visibilidade internacional, que prometia drenagem de canais, pavimentação de ruas e tratamento de esgoto, serviu como fachada para enriquecimento ilícito de alguns.

A operação “Óbolo de Caronte”, deflagrada em 16 de outubro, cumpriu 13 mandados de busca e apreensão, afastou 12 servidores e suspendeu três contratos públicos. Entre os crimes investigados estão organização criminosa, corrupção e lavagem de dinheiro.

Surfando no vendaval

Entre 2020 e 2024, a empresa F.A.S. Serviços Técnicos, do empresário Jorge Quintairos Jacob, recebeu R$ 153 milhões em contratos da Prefeitura de Belém. A PF identificou saques em espécie superiores a R$ 9 milhões e propinas mapeadas que somaram R$ 5,3 milhões.

A ex-secretária de Saneamento Ivanise Gasparim, do PT, teria orquestrado o esquema, direcionando contratos, indicando funcionários que deveriam receber propina e recebendo transferências por meio de terceiros e até de um restaurante de familiares.

Entre os presentes de luxo, constam: um carro de R$ 356 mil, entregue de forma “velada”; um apartamento no Leblon, comprado por R$ 729 mil; entrada de R$ 354 mil para um segundo apartamento em Belém; e repasses de R$ 180 mil ao secretário de Planejamento e Gestão Cláudio Puty.

Enquanto uns enfeitavam apartamentos com dinheiro público, moradores continuavam a contar água pelas ruas alagadas.

A obra e o dinheiro

A PF constatou que o programa está em estado de abandono desde janeiro de 2025. “Milhões de reais foram liberados e pagos à empresa contratada, sem correspondência no canteiro de obras”, afirma o relatório. Mensagens trocadas entre a empreiteira e gestores da secretaria revelam pressão para liberação de recursos do “Mata Fome”. Uma nota de empenho de outubro de 2024 garantiu R$ 5,3 milhões para a F.A.S., com recursos do Fonplata, banco de desenvolvimento da América do Sul, e do PAC Seleções, do governo federal.

Enquanto isso, a população convive com enchentes crônicas e o que deveria ser prioridade de uma COP tornou-se palco de vaidades, apartamentos e carros de luxo.

Mirando a paisagem

A empreiteira e a ex-secretária não responderam à reportagem. O ex-prefeito Edmilson Rodrigues, do Psol, disse que os contratos foram assinados antes de sua gestão e que não é citado pela Polícia Federal. A atual administração afirmou que colabora com a investigação e abriu sindicância interna.

O Ministério das Cidades esclareceu que os recursos para urbanização e qualificação do “Mata Fome” não foram liberados pela pasta. “A obra não concluiu o processo licitatório”, informou nota oficial.

Prioridades invertidas

O caso do “Mata Fome” expõe como interesses escusos podem fulminar programas que deveriam ser prioritários para a COP30 e a população. Enquanto uns se enriquecem com apartamentos e carros, a população permanece à mercê das enchentes.

No fim, o vendaval é menos vento, mais dinheiro. E em Belém, a lição é clara: nem todas as prioridades que chegam à ONU encontram eco em terra firme.

Papo Reto

·Seguem em ritmo acelerado os acordos fechados - via lobby - para a COP30. Dessa vez, a rasteira veio da Heineken, que vai doar um milhão e meio de latas de água mineral para abastecer a Blue Zone durante todo o evento. Isso mesmo, nada de água mineral local.

·E para oficializar a iniciativa, a Heineken realizou, no último dia 16, com representantes do governo federal, um evento em… Brasília.

·O lançamento contou com a presença de Ana Toni (foto), CEO da COP30; Aldrik Gierveld, embaixador do Reino dos Países Baixos; Julia Cruz, secretária de Economia Verde, e representantes das empresas parceiras.

·A Prefeitura de Belém exonerou o diretor de Ação Cultural da Secretaria de Cultura e Turismo, Anderson Reis, mas o rapaz não deve ficar desempregado. Nem todo acordo é feito para ser quebrado.

·Veja como são as coisas: o presidente da Associação dos Municípios do Marajó, Clebinho Rodrigues, e o secretário-executivo, Guto Gouvea, agendaram reunião com o superintendente da Sudam, Paulo Rocha.

·A pauta: abrir diálogo com lideranças do Amapá com vistas ao recebimento de royalties provenientes da produção da Margem Equatorial.

·No Marajó, a avaliação é de que, em março de 2026, a sonda da Petrobrás já terá chegado ao poço de petróleo e avaliado seu potencial.

·Rudyard Kipling dizia que não convém ser bom demais, nem pretensioso, mas o PT no Pará é um caso a ser estudado.

·Além de espalhar aos quatro ventos que ‘deverá’ apoiar a candidatura de Hana Ghassan para o governo do Estado, o partido de Beto Faro coloca o deputado estadual Dirceu Ten Caten como vice na chapa.

·E mais: avisa que pretende ampliar de dois para três sua bancada federal, com a reeleição de Airton Faleiro e Dilvanda Faro, e de quatro para cinco ou seis na Assembleia Legislativa, na onda de reeleição do presidente Lula.

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.