Momento é de usar a riqueza gerada para financiar, em escala, a própria transição ecológica que tanto defendemos
Enquanto o mundo debate a transição energética, uma dura realidade geopolítica se impõe: o petróleo continuará sendo a moeda de troca do poder global por pelo menos duas décadas. Duas décadas.
Neste xadrez, o Brasil assiste, estarrecido, ao vizinho Guiana se transformar no país que mais cresce no planeta, enquanto emperramos num debate maniqueísta que trata a exploração da Margem Equatorial como um crime ambiental.
Não se trata de negar o Aquecimento Global. Trata-se de usar a inteligência e a tecnologia para extrair o recurso, claro, com o maior rigor ambiental possível, enquanto usamos a riqueza gerada para financiar, em escala, a própria transição ecológica que tanto defendemos.
Em 2015, a ExxonMobil descobriu o poço de Liza, na bacia de Stabroek. O que se seguiu foi um fenômeno socioeconômico sem precedentes na América do Sul.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) projeta que o PIB da Guiana cresça 33,9% em 2026. Desde 2020, o crescimento acumulado ultrapassa 300%.
A renda per capta saiu de US$ 6.900 (2019) para mais de US$ 28.000 28.000 (estimado 2026), superando o Chile e o Uruguai.
O país já acumula mais de US$ 2 bilhões em um fundo para o futuro, enquanto zerou a dívida externa e quadruplicou os investimentos em saúde e educação.
O paradoxo? A Guiana tem uma população muito menor que a cidade de Belém (PA). A bacia da Foz do Amazonas, que compartilha a mesma formação geológica, possui um potencial estimado em 5,6 bilhões de barris de petróleo recuperáveis. É o novo pré-sal, mas na foz do maior rio do mundo.
Enquanto a Guiana decolou, o Arquipélago do Marajó é o infame retrato do atraso que o Brasil simplesmente normalizou. Com 16 municípios e cerca de 500 mil habitantes, a região vive uma miséria crônica que é uma chaga nacional, com mais de 60% da população vivendo em extrema pobreza, segundo o IBGE.
O IDH médio da região equivale ao de países da África Subsaariana. Não há esgoto tratado, a malha viária é precária e a energia elétrica, em muitos locais, é fornecida por geradores a diesel poluentes.
A exploração do petróleo na bacia da foz, com a instalação de uma infraestrutura logística em terra (no Amapá ou no Pará), poderia reverter esse quadro em menos de 5 anos. Os royalties e a participação especial injetariam bilhões nos cofres nortistas. Seria a primeira vez na história que a Amazônia veria o retorno econômico direto de seu subsolo.
O argumento contrário é a "vulnerabilidade" do ecossistema, mas é um erro subestimar a capacidade técnica do Brasil. Já operamos o pré-sal a 300 km da costa, em lâminas d'água de 2.000 metros. A Margem Equatorial tem profundidade de até 100 metros.
A Petrobras já se comprometeu com um plano de contingência inédito, com bases de apoio em Oiapoque (AP) e Belém (PA), e utilizará a tecnologia de TDP (Terminal de Descarga de Poço), que escoa o óleo sem a necessidade de navios-plataforma permanentemente ancorados na área de recifes, reduzindo drasticamente o risco de vazamentos.
A questão não é "se" vai vazar, mas "como evitar". E a resposta virá com investimento pesado em monitoramento robótico e inteligência artificial, algo que o Brasil tem recursos para fazer.
Se o Brasil recuar, estará trocando a soberania energética por importações de derivados (que custam US$ 15 bilhões por ano) e abrindo mão de uma arrecadação estimada em R$ 250 bilhões em royalties ao longo de 30 anos.
Enquanto isso, a Guiana, com menos de 1 milhão de habitantes, já compra jatos executivos e constrói rodovias com dinheiro do petróleo. Nós, com 203 milhões de pessoas, continuaremos a ver o Marajó definhar na lama, enquanto grupos ambientalistas estrangeiros (muitos financiados por petrolíferas que querem reduzir a concorrência) pregam que a Amazônia deve ser um "santuário intocável".
O desenvolvimento sustentável não é sobre não tocar. É sobre tocar com responsabilidade. A energia do petróleo da Foz do Amazonas deve ser a ponte que levará o Brasil à era do hidrogênio verde. Mas para construir a ponte, precisamos extrair o lastro financeiro que está no fundo do mar.
O Brasil não pode cometer o erro histórico de trocar a vida digna de milhões pela idealização romântica de uma floresta sem gente. A hora de perfurar é agora. Pela economia, pela soberania e, sobretudo, pelo povo do Marajó.
Foto: Reprodução/X/Cambio16
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José Croelhas é economista,
consultor, escritor e palestrante
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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