Análise de dados de mais de 179 mil pessoas acompanhadas por dez anos relaciona maior ingestão do nutriente a melhor função pulmonar e menor risco de DPOC
São Paulo, SP - Reconhecida por atuar em prol da coagulação sanguínea, a vitamina K aparece em um estudo, publicado em junho no periódico American Journal of Clinical Nutrition, que aponta impactos positivos à saúde respiratória. Foram analisados dados de mais de 179 mil participantes, acompanhados por 10 anos, vindos do UK Biobank, levantamento nacional do Reino Unido.
Pesquisadores de universidades australianas e europeias observaram que o consumo de fontes de vitamina K1, tipo encontrado em vegetais, foi associado a uma melhor função pulmonar. Também foi mencionada redução do risco de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), distúrbio que interfere com a passagem do ar pelos pulmões, decorrente de inflamação, e que provoca sintomas como falta de ar e cansaço, afetando a qualidade de vida.
“Trata-se de um estudo bem conduzido e relevante, mas precisa ser lido com cautela, porque representa associação, não causalidade”, comenta o pneumologista Guylherme Saraiva, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia. Não estabelece, portanto, causa e efeito, gerando hipóteses, que precisam ser confirmadas em ensaios clínicos randomizados, considerados o padrão-ouro da pesquisa.
A pesquisa reforça a recomendação de incluir fontes de vitamina K na alimentação. “Ainda assim, não é o suficiente para indicar a suplementação com o objetivo de prevenir doenças respiratórias”, observa a nutricionista Tânia Andrade, também do Einstein.
Alguns mecanismos ajudam a elucidar a atuação atrelada ao micronutriente. Um dos possíveis efeitos envolve a proteção contra processos de calcificação vascular, comuns na DPOC, e que prejudicam os pulmões. E há outros indícios. “Alimentos ricos em vitamina K1, como vegetais folhosos, fornecem outros nutrientes com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias”, completa Saraiva.
Para o médico, a mensagem mais segura do estudo é a de que padrões alimentares com grande variedade de hortaliças, frutas, grãos, cereais integrais e sementes, estão associados a melhor saúde global e, por consequência, pulmonar. Além do cardápio equilibrado, outras estratégias são bem-vindas, sobretudo a de evitar o tabagismo. “Vacinação adequada, atividade física regular, assim como o controle de exposição a poluição e fumaça são importantes”, acrescenta o pneumologista.
Uma vitamina que são várias
Embora os benefícios da vitamina K aos pulmões precisem de mais comprovação, seu papel na coagulação sanguínea já está consolidado. Ela ativa proteínas responsáveis por evitar hemorragias.
Inclusive, a escolha da letra do alfabeto para designar a vitamina vem da palavra koagulation, que significa coagulação, e foi batizada assim pelo bioquímico dinamarquês Carl Peter Henrik Dam (1895-1976), laureado com o prêmio Nobel pelas descobertas envolvendo o composto.
Na verdade trata-se de um grupo de vitaminas lipossolúveis (solúveis em gordura), sendo a K1 e a K2 as mais presentes no dia a dia. Também chamada de filoquinona, a K1 ganhou maior destaque no estudo. “É essencial para o controle do sangramento, mas também contribui para a saúde óssea”, observa Andrade. Ela aparece em hortaliças como couve, espinafre, brócolis, agrião, rúcula, alface, repolho e óleos vegetais, especialmente soja e canola. “Sua absorção é melhor quando consumida com uma fonte de gordura”, ensina a nutricionista.
A K2, ou menaquinonas, compreende diferentes formas (MK-4 a MK-13). “Algumas são produzidas por bactérias e estão presentes em alimentos fermentados”, destaca a especialista. Entre os fornecedores estão o nattô, um fermentado de soja; queijos maturados, iogurtes, gema de ovo e carnes, como o fígado. Favorece a mineralização óssea fortalecendo o esqueleto, e há indícios de benefícios à saúde cardiovascular.
“Já a vitamina K3 (menadiona) é sintética e não é indicada devido ao potencial de toxicidade, principalmente pelo risco de lesão hepática e anemia hemolítica”, explica Tânia Andrade. Suplementos de vitamina K só devem ser indicados por médico ou nutricionista e existem contraindicações, sobretudo para pacientes que usam certas medicações anticoagulantes. A recomendação é optar por um cardápio variado, com maior espaço para vegetais, para que não falte nenhum nutriente.
Foto: Freepik
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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