Falas calculadas reforçam leitura de que Planalto trabalha para transformar ex-ministro em peça estratégica do lulismo no Pará.
Evento teve presença ativa, entusiasmada e simbólica do ex-senador Paulo Rocha e da ex-governadora do Estado Ana Júlia /Fotos: Divulgação.
Encontro Estadual do PDT, na noite de sexta-feira, 8, em Belém, foi vendido oficialmente como um ato partidário de fortalecimento da legenda no Estado, mas, politicamente, o evento parece ter revelado muito mais do que um simples movimento interno do partido.
O que se viu no palanque montado na Escola de Samba Bole-Bole, no Guamá, foi a consolidação pública de uma articulação nacional que já circulava nos bastidores de Brasília antecipado pela coluna: o avanço do apoio do PT e do Palácio do Planalto à pré-candidatura de Celso Sabino ao Senado Federal.
Rumores que correm na capital federal apontam que a direção nacional do PT já trabalha para consolidar uma composição política em torno de Sabino, incluindo a possibilidade de a ex-governadora Ana Júlia Carepa ocupar a primeira suplência da chapa. Neste ponto, e pelo que foi visto e ouvido no encontro do PDT, talvez já não seja mais correto tratar o tema apenas como rumor.
Em política, especialmente em eventos dessa natureza, presenças e ausências costumam falar tão alto quanto os discursos. E o que chamou a atenção no encontro foi justamente a presença ativa, entusiasmada e simbólica de duas das figuras historicamente mais próximas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Pará: o ex-senador Paulo Rocha e Ana Júlia Carepa.
Paulo Rocha, que já ocupou uma cadeira no Senado e mantém trânsito direto com Lula, não deixou margem para dúvidas ao declarar apoio ao nome de Sabino. “Celso tem capacidade de diálogo, construiu pontes importantes e reúne as condições necessárias para representar o Pará no Senado”, afirmou durante o encontro, em uma fala interpretada nos bastidores como um recado claro de alinhamento político.
Ana Júlia, mais do que explícita, foi contundente ao citar nominalmente o presidente da República. Ela declarou que Sabino é “o candidato do presidente Lula ao Senado no Pará”. A frase, dita em um evento oficial do PDT e diante do presidente nacional do partido, Carlos Lupi, teve peso político imediato e praticamente eliminou qualquer espaço para interpretação de neutralidade do campo lulista em relação à disputa pela segunda vaga ao Senado no estado.
Lupi, por sua vez, confirmou publicamente que Sabino será o nome do PDT na disputa de 2026. Já o presidente estadual da legenda, Giovanni Queiroz, tratou o encontro como o início de uma nova fase de fortalecimento partidário no Pará.
A leitura política por trás da movimentação é estratégica. Nas pesquisas acompanhadas pelo Planalto, o ex-governador Helder Barbalho lidera com folga todos os cenários para o Senado. A verdadeira disputa estaria concentrada na segunda vaga - justamente o espaço em que Sabino aparece em empate técnico com o deputado federal Éder Mauro, um dos principais nomes da direita bolsonarista no Estado e aliado do senador Flávio Bolsonaro.
No xadrez político nacional, o cálculo parece bem evidente: fortalecer Sabino significaria não apenas ampliar a base lulista no Senado, mas também impedir que a segunda vaga paraense seja ocupada por um nome alinhado ao bolsonarismo.
Mais do que uma disputa regional, a eleição para o Senado no Pará começa a ser tratada como peça importante da estratégia presidencial de 2026. Isso porque, no cenário nacional, aliados do governo já trabalham com a previsão de uma eleição presidencial extremamente polarizada entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Nesse contexto, garantir um palanque robusto no Pará - Estado estratégico eleitoralmente na Região Norte -, tornou-se prioridade para o Planalto.
Engenharia maior
Trocando em miúdos: o apoio velado - e agora cada vez mais desvelado - ao nome de Celso Sabino parece fazer parte de uma engenharia política maior.
Uma tentativa de assegurar ao lulismo não apenas mais uma cadeira no Senado, mas também um aliado capaz de consolidar apoio regional decisivo para uma eventual disputa de segundo turno presidencial em 2026.
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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