Pesquisa coordenada pela Ufopa identifica mercúrio e arsênio acima de limites seguros em cenário de alto consumo alimentar
peixe sempre foi sinônimo de segurança alimentar na Amazônia. Agora, passa a ser também motivo de alerta. Estudo coordenado pela Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), em parceria com a Universidade de Santiago de Compostela, a Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará e a Universidade Federal Rural do Semi-Árido acendeu sinal amarelo sobre o consumo frequente de determinadas espécies em comunidades ribeirinhas.

A pesquisa, More Danger Than Meets the Eye (“Mais Perigoso do que Parece”), analisou 398 exemplares de seis espécies coletadas em Santarém, Itaituba, Juruti, Porto Trombetas e Faro. O resultado: no chamado “cenário amazônico” - que considera consumo médio de 462 gramas de peixe por dia - foram identificados riscos não cancerígenos e cancerígenos acima dos limites internacionalmente aceitos.
Segundo o coordenador do estudo, professor Antônio Humberto Hamad Minervino, 25% das amostras apresentaram risco cancerígeno considerado inaceitável quando se leva em conta o padrão alimentar ribeirinho. Traduzindo: uma em cada quatro amostras ultrapassa o limite de risco de câncer admitido em avaliações internacionais.
O principal responsável pelo risco cancerígeno foi o arsênio. Já o mercúrio apareceu como o contaminante mais preocupante no risco não cancerígeno - associado a efeitos tóxicos sistêmicos ao longo da vida. Em espécies carnívoras, os índices chegaram a quase 30 vezes o nível considerado seguro. O tucunaré coletado em Porto Trombetas apresentou um dos maiores registros.
No padrão alimentar nacional brasileiro - estimado em 24 gramas de peixe por dia - os níveis permanecem dentro do aceitável. O problema está na realidade amazônica. Para comunidades ribeirinhas, o peixe não é complemento; é base proteica diária.
A metodologia internacional de avaliação de risco considera três variáveis: concentração do contaminante, quantidade ingerida e parâmetros médios da população. Quando o consumo sobe, o risco cresce proporcionalmente. A pesquisa chama atenção justamente para essa diferença entre diretriz nacional e prática regional.
Os municípios analisados enfrentam múltiplas pressões: garimpo de ouro, mineração de bauxita, expansão agrícola, desmatamento e queimadas. O mercúrio está historicamente associado à atividade garimpeira. O arsênio, embora menos estudado na Amazônia, tem reconhecido potencial carcinogênico na literatura científica.
Em 2025, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos revisou para cima - em até 20 vezes - a estimativa de risco de câncer associada ao arsênio, reforçando o debate internacional.
O próprio coordenador do estudo faz questão de ponderar: para a população em geral, o consumo de peixe continua seguro. O risco identificado está vinculado ao padrão alimentar específico das comunidades que consomem peixe diariamente em grandes quantidades. O trabalho, portanto, não condena o peixe; expõe uma vulnerabilidade estrutural.
A Amazônia sempre vendeu a imagem de abundância natural, mas abundância sem controle ambiental vira passivo silencioso. Se o peixe - símbolo máximo da segurança alimentar ribeirinha - começa a carregar contaminantes acima do tolerável, estamos diante de um problema que não é apenas sanitário - ou uma questão de
política pública: com a base da alimentação em risco, não é só a saúde que está em jogo, mas o futuro de quem vive do rio.

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Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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