Artistas, servidores e moradores denunciam esvaziamento institucional do Museu de Arte de Belém após reforma administrativa da prefeitura.
m dos mais importantes patrimônios culturais da Amazônia voltou ao centro do debate público em Belém. No último domingo, 7, durante a 61ª edição do projeto Circular Campina e Cidade Velha, artistas, pesquisadores, servidores e moradores da capital realizaram um abraço simbólico em torno do Museu de Arte de Belém, o Mabe, em um protesto contra o que classificam como abandono institucional da principal unidade museológica do município.

A mobilização, batizada de “O Mabe pede socorro”, reuniu dezenas de participantes munidos de faixas e cartazes e deu início a uma campanha que pretende reunir 10 mil assinaturas em defesa do museu. O movimento cobra providências da Prefeitura de Belém para reestruturar administrativamente a instituição e garantir condições adequadas de preservação do acervo.
Mais do que um ato em defesa de um prédio histórico, os manifestantes afirmam que a mobilização busca preservar parte significativa da memória artística e cultural paraense.
Segundo integrantes do movimento, a situação atual do museu começou a se desenhar após a reforma administrativa promovida pela Prefeitura de Belém em fevereiro de 2025, que extinguiu a Fundação Cultural do Município de Belém - Fumbel. Até então, o Mabe funcionava como departamento da fundação, contando com estrutura técnica própria para conservação, pesquisa, curadoria, restauração e ações educativas.
Com a reorganização administrativa, porém, o museu deixou de integrar formalmente uma estrutura específica de gestão cultural. Embora a Secretaria de Cultura tenha sido criada posteriormente, o Mabe não foi absorvido como unidade museológica autônoma. O resultado, segundo servidores e especialistas da área, foi a extinção de cargos técnicos e a perda de instrumentos administrativos fundamentais para o funcionamento da instituição. Na prática, afirmam, o museu ficou sem identidade institucional definida dentro da estrutura da Prefeitura.
As denúncias não se limitam à questão administrativa. Uma das reclamações recorrentes envolve a falta de materiais básicos para o trabalho cotidiano com o acervo. Segundo relatos, servidores precisam adquirir por conta própria itens como luvas e máscaras para manipular peças históricas. A situação torna-se ainda mais preocupante em razão da natureza do acervo e das condições climáticas de Belém.
Entre os pedidos considerados prioritários está a aquisição de desumidificadores destinados à proteção das obras contra os efeitos da umidade. Segundo pessoas ligadas ao museu, a demanda não foi atendida. O receio é que a ausência de equipamentos adequados comprometa a conservação de peças insubstituíveis, produzindo danos permanentes ao patrimônio público.
“Cultura e memória também são serviços essenciais à vida. Todos têm direito à cultura”, resumiu uma das participantes da mobilização.
Fundado em 1991, o Museu de Arte de Belém ocupa o Palácio Antônio Lemos, imóvel tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), onde funciona também o gabinete da prefeitura. O museu abriga mais de duas mil obras, entre pinturas, esculturas, porcelanas, mobiliário e documentos históricos relacionados à trajetória artística do Pará, da Amazônia e do Brasil.
Entre os destaques do acervo estão trabalhos de Theodoro Braga e a emblemática pintura “A Vendedora de Tacacá”, produzida em 1937 pela artista paraense Antonieta Santos Feio. Outra peça de grande relevância histórica é a tela “Os Últimos Dias de Carlos Gomes”, executada em 1899 pelos artistas italianos Domenico De Angelis e Giovanni Capranesi.
A obra esteve no centro de uma polêmica no ano passado, quando surgiu a possibilidade de utilização do espaço expositivo para atividades administrativas. A reação de artistas, pesquisadores e da opinião pública impediu a mudança.
Entre os conjuntos mais valiosos do acervo está uma coleção de 150 fotografias produzidas pelo fotógrafo e antropólogo franco-brasileiro Pierre Verger durante passagens pela Amazônia no final da década de 1940. As imagens retratam Belém, Santarém, Belterra e Fordlândia e constituem um dos registros documentais mais importantes da vida amazônica naquele período.
A aquisição da coleção foi resultado de uma articulação realizada em 2003 pela artista plástica Nina Matos, então diretora do museu, em parceria com o Ministério da Cultura e com patrocínio da Petrobras.
Especialistas alertam que coleções fotográficas desse porte exigem monitoramento ambiental permanente, controle de umidade e condições específicas de armazenamento para garantir sua preservação ao longo do tempo.
A situação do museu já extrapolou os limites do setor cultural. Na terça-feira, 9, a deputada estadual Lívia Duarte (Psol) utilizou a tribuna da Assembleia Legislativa para denunciar o que chamou de processo de esvaziamento do Mabe. Segundo a parlamentar, a perda do status de departamento retirou do museu autonomia administrativa e capacidade de planejamento. “É um golpe terrível na cultura do município de Belém”, afirmou.
Outro ponto que vem gerando debates é a nomeação de Josias Higino Filho para a direção do museu. Recém-formado em Matemática, ele é filho do vereador Josias Higino, integrante da base de apoio do prefeito Igor Normando. A escolha despertou questionamentos sobre critérios técnicos para ocupação de cargos ligados à gestão museológica e à preservação do patrimônio histórico.
Paralelamente, o Conselho Regional de Museologia da 1ª Região ingressou com representação junto ao Ministério Público do Estado do Pará para apurar a situação dos museus públicos de Belém e do Estado.
O procedimento resultou na abertura de inquérito, mas representantes do setor cultural aguardam medidas concretas que assegurem proteção institucional ao patrimônio.
O protesto realizado no centro histórico de Belém revelou que a preocupação com o Mabe já não se restringe a especialistas ou servidores da área cultural. Para os participantes da mobilização, a discussão envolve o direito da população à memória, à arte e à preservação de sua própria história.
A situação do principal museu municipal tornou-se um símbolo de uma contradição incômoda. Enquanto Belém projeta seu futuro para o planeta, cresce o temor de que parte importante de seu passado esteja sendo deixada sem a proteção que merece.

•A governadora Hana Ghassan (foto) mandou à Alepa projeto de lei criando uma delegacia especializada no combate a crimes rurais, roubo e furto de gado, a Deleagro.
•O governo do Pará diz que vai combater o roubo de gado, mas o texto do PL cria ainda uma estrutura para monitorar organizações e ampliar ações de controle no campo.
•A oposição diz que é mais um mecanismo de controle, repressão e monitoramento das comunidades campesinas e para defender o agronegócio.
•E pergunta por que mais uma delegacia, se o Pará já tem a Delegacia Especializada em Conflitos Agrários, unidade da Polícia Civil que atua na investigação de crimes envolvendo conflitos agrários.
•O submundo está em festa: o Exército suspendeu suas ações de fronteira em combate ao crime organizado por corte de R$4,3 bilhões pelo governo no orçamento da Defesa.
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•Após aumentos, a Latam também reduziu a oferta de voos para poupar querosene.
•O mercado financeiro elevou a previsão de inflação no Brasil para 5,11% este ano.
•A Toyota vai fechar as portas, no dia 30 de junho, de sua fábrica de Indaiatuba (SP), que operava desde 1998 na produção nacional do Corolla Sedan.
•A planta chegou a produzir mais de 1 milhão de veículos, empregando cerca de 1,5 mil trabalhadores.
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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