Com ANPD e Congresso avançando na regulamentação da IA, empresas precisarão comprovar transparência e garantir revisão humana em decisões automatizadas
inteligência artificial já faz parte da rotina do recrutamento e, em muitos casos, influencia diretamente quem avança ou não em um processo seletivo. É o que mostra um levantamento do Pandapé em parceria com a Adecco, realizado com 460 profissionais de RH: sete em cada dez empresas brasileiras já utilizam IA em alguma etapa do recrutamento.

A própria Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) já garante ao titular o direito de solicitar a revisão de decisões tomadas exclusivamente por tratamento automatizado. O que muda agora é o contexto regulatório: com a atuação mais ativa da ANPD e o avanço das discussões no Congresso, cresce a expectativa de que empresas consigam demonstrar, na prática, como essas decisões são tomadas e quais mecanismos existem para contestá-las.
A adoção da IA aconteceu muito mais rápido do que a estruturação de políticas para governá-la. “Muitas empresas passaram a usar algoritmos no recrutamento antes de definir como auditar resultados ou identificar possíveis vieses. Hoje, o maior desafio não é tecnológico. É de governança", afirma Patricia Suzuki, diretora de RH.
A preocupação faz sentido. Sistemas de IA aprendem a partir de dados históricos e, quando esses dados carregam padrões discriminatórios, a tecnologia tende a reproduzi-los em escala. Um estudo da Harvard Business Review identificou que algoritmos treinados com bases enviesadas podem reduzir sistematicamente a visibilidade de determinados grupos de candidatos sem que o recrutador perceba.
Já uma pesquisa do IBM Institute for Business Value mostra que apenas 35% das organizações globais possuem processos formais para explicar como suas ferramentas de IA chegam às recomendações que fazem.
Além do desafio técnico, cresce também a responsabilidade jurídica. O projeto de lei em discussão na Câmara prevê mecanismos de transparência sobre decisões automatizadas e amplia a importância de manter registros capazes de demonstrar como essas ferramentas são utilizadas. Para as organizações de RH, isso significa que documentar critérios e manter supervisão humana deixa de ser apenas uma boa prática e passa a fazer parte da gestão de riscos
O movimento acompanha uma preocupação crescente das próprias empresas. Segundo pesquisa da Mercer, 64% dos líderes de RH no mundo reconhecem que suas organizações ainda não estão preparadas para lidar com as implicações éticas do uso de inteligência artificial na gestão de pessoas.
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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