Círio altera horários de terminais e pontos turísticos em Belém OEA faz alerta sobre as eleições e destaca decisões individuais nas cortes superiores Helder vence nas urnas, mas registro ainda pode render na Justiça Eleitoral
ELEIÇÕES 2026

Flávio Dino derruba decisão do TSE e abre crise na reta final: a serviço da reeleição?

Editorial do “Estadão” acusa ministro de atuar para reeleger Lula; caso envolve Flávio Bolsonaro, liberdade de expressão e choque entre STF e Justiça Eleitoral.

  • 555 Visualizações
  • Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 28/09/26 17:00
Flávio Dino derruba decisão do TSE e abre crise na reta final: a serviço da reeleição?
A


eleição presidencial entra na última semana com o Supremo Tribunal Federal no centro de uma controvérsia que vai muito além de uma postagem sobre Nossa Senhora Aparecida. A seis dias do primeiro turno, o ministro Flávio Dino derrubou uma decisão do ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral, e determinou o restabelecimento de publicações que haviam sido retiradas das redes sociais por ordem da Justiça Eleitoral.

Jornal paulista não mede palavras para definir “empenho” do ministro do STF na reta final da eleição/Fotos: Divulgação.
O episódio provocou uma reação incomum do Estadão. Em editorial publicado no domingo, 27, o jornal estampou no título uma acusação direta: “Dino atua para reeleger Lula”. O texto classificou como política a decisão do ministro e sustentou que Dino teria confrontado o TSE para favorecer a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A interpretação é do jornal, não uma conclusão judicial sobre a conduta do ministro.

O que aconteceu, porém, é suficientemente objetivo para sustentar uma pergunta que dispensa adjetivos: até onde pode ir um ministro do STF, individualmente, quando uma decisão da Justiça Eleitoral já está produzindo efeitos sobre uma disputa presidencial?

Decisão provoca choque

Na sexta-feira, 25, André Mendonça, vice-presidente do TSE, havia determinado a retirada de uma publicação do humorista Antônio Tabet relacionada à controvérsia sobre Nossa Senhora Aparecida. O conteúdo fazia referência à chamada “família miliciana” e a uma suposta iniciativa de retirada do título de Padroeira do Brasil.

Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, havia recorrido à Justiça Eleitoral alegando que a informação era inverídica e continha imputação de crime e discurso de ódio. Segundo a Agência Brasil, a decisão de Mendonça alcançou conteúdos semelhantes e estabeleceu multa diária de R$ 30 mil em caso de descumprimento.

Mendonça considerou, em análise preliminar, que a publicação ultrapassava o campo da opinião política e apresentava informação que poderia interferir na formação da vontade do eleitor. A defesa de Flávio havia informado ao TSE que uma das publicações alcançara 195 mil visualizações, 2 mil compartilhamentos e 11 mil curtidas em poucas horas. 

Dino entra na parada

No domingo, o ministro do STF acolheu pedido de Antônio Tabet e restaurou a publicação. Mais que isso: determinou também o restabelecimento de outras postagens retiradas pelo mesmo fundamento e cassou a ordem que impedia novas publicações semelhantes.

Liberdade v controle

Dino justificou a decisão com argumentos relacionados à liberdade de expressão e à liberdade religiosa. Para ele, não seria possível presumir que a expressão “família miliciana” estivesse necessariamente relacionada a Flávio Bolsonaro e, portanto, não haveria grau suficiente de certeza sobre a ilicitude que justificasse a retirada do conteúdo sem instrução processual adequada. É uma discussão jurídica legítima.

A questão, contudo, ganhou outra dimensão porque a decisão anterior havia sido tomada justamente no TSE, órgão constitucionalmente responsável pela condução da Justiça Eleitoral. A composição oficial do tribunal mostra Mendonça como vice-presidente e Dino como ministro substituto.

A campanha de Flávio Bolsonaro reagiu dizendo ver na decisão uma tentativa de “descredenciamento” da Justiça Eleitoral. Em nota, a defesa questionou o fato de uma decisão do TSE, tomada no exercício de sua competência eleitoral, ter sido afastada por outro órgão em plena campanha presidencial. A discussão, portanto, deixou de ser apenas sobre Nossa Senhora Aparecida.

Além do episódio

O editorial do “Estadão” transformou o episódio em uma acusação política. Segundo o jornal, Dino teria “atropelado competências” e atuado em favor da campanha de Lula. O editorial também recuperou o passado de Dino como ministro da Justiça do atual presidente e associou sua atuação no STF ao confronto entre ministros indicados por Lula e ministros indicados por Jair Bolsonaro. Essa interpretação não é consenso.

O próprio fundamento apresentado por Dino é outro: preservar a liberdade de expressão diante de uma decisão que, na sua avaliação, retirou conteúdo das redes sem demonstração suficiente de ilicitude. A Agência Brasil registrou que o ministro considerou desproporcional a remoção e destacou o direito à crítica política. É exatamente aí que a discussão fica interessante.

Não é preciso afirmar que Dino esteja trabalhando para Lula para reconhecer que sua decisão produz efeitos dentro de uma eleição em que Lula e Flávio Bolsonaro estão em lados opostos. Tampouco é preciso afirmar que Mendonça tenha acertado para reconhecer que a decisão foi tomada dentro da Justiça Eleitoral e sob a justificativa de impedir a circulação de informação considerada falsa. O fato é que uma decisão eleitoral foi derrubada por um ministro do STF na última semana da campanha.

A seis dias da urna

O calendário do TSE marca 4 de outubro como data do primeiro turno. Portanto, a decisão de Dino ocorreu a exatamente uma semana da votação, quando a disputa entra em seu período mais sensível. É nesse ponto que a controvérsia deixa de ser apenas jurídica e passa a interessar diretamente ao eleitor.

A Justiça Eleitoral pode retirar conteúdos considerados capazes de interferir na formação da vontade do eleitor? Sim. O próprio sistema eleitoral prevê mecanismos para isso. Mas quais são os limites dessa intervenção? E, uma vez tomada a decisão pelo tribunal competente, quem pode suspendê-la? Em que circunstâncias? Por qual procedimento? São perguntas maiores que a postagem original.

O episódio também alimenta uma crise institucional que já vinha aparecendo no próprio Supremo. Nos últimos dias, a Corte passou a expor divergências entre seus ministros, inclusive envolvendo Mendonça e Alexandre de Moraes. Agora, a disputa alcança diretamente o terreno eleitoral. O problema, para além de Lula, Flávio Bolsonaro, Nossa Senhora Aparecida ou qualquer candidato, é outro: a confiança do eleitor na neutralidade das instituições encarregadas de organizar e julgar a eleição.

Papo Reto

• Veja como anda o burburinho a sete dias da eleição: em 1717, Nossa Senhora Aparecida entrou na história pelas redes de três pescadores. Este ano, foram redes sociais que a levaram à eleição presidencial. 

•O ministro André Mendonça mandou as redes agirem preventivamente contra publicações que associem Flávio Bolsonaro ou sua família à retirada do título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida. A multa pode chegar a R$ 50 mil por dia. 

•O ministro Flávio Dino derrubou decisões do TSE que obrigavam Antônio Tabet a apagar uma postagem sobre Nossa Senhora e afastou a multa de R$ 30 mil. Com a decisão de Dino em mãos, Tabet fez o que provavelmente se esperava de um humorista: comemorou e publicou tudo de novo. 

•A campanha de Flávio acusou Dino de "usurpação constitucional de competência" da Justiça Eleitoral ao restabelecer publicações sobre Nossa Senhora Aparecida.  E Flávio voltou ao assunto e acusou a "milícia do PT" de espalhar a informação falsa sobre Nossa Senhora Aparecida. 

•Lula disse que "mexer" com Nossa Senhora Aparecida "não é aceitável" e defendeu a permanência da santa como Padroeira do Brasil. 

•Flávio acusou o PT e "gente de dentro" da CNBB de criar a fake news sobre Nossa Senhora. E a entidade rebate: "mentira não se combate com outra mentira". 

•Antes dessa nova rodada, Flávio já havia negado qualquer proposta para retirar o título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida. A história, porém, tem raízes bem anteriores à campanha de 2026. 

•Em meio à disputa pelo voto católico, a CNBB perdeu acesso à conta oficial no X após alteração do e-mail vinculado ao perfil.

Mais matérias OLAVO DUTRA

img
Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.