Recapeamento da avenida Nazaré expôs um problema antigo de Belém: ruas onde camadas de asfalto foram elevando a pista e criando desníveis que ameaçam pedestres, inclusive no trajeto do Círio.
diferença entre duas falas do prefeito Igor Normando, em menos de uma semana, revelou mais do que uma mudança de posição sobre o recapeamento da avenida Nossa Senhora de Nazaré. Expôs um problema que está muito além daquele trecho: em Belém, o asfalto sobe e, aos poucos, a calçada desaparece.

Menos de três dias depois, as redes sociais mostraram que a
discussão não era exatamente sobre a qualidade do asfalto, mas sobre a execução
do serviço. O que para alguns parecia apenas um desnível virou, na ironia dos
internautas, uma espécie de “trincheira” capaz até de receber saltos de
crossfit. E o prefeito voltou às redes.
“Não tenho compromisso com o erro. Assim que constatamos que
o nivelamento do asfalto na avenida Nazaré não estava seguindo o que foi
previsto no projeto, notificamos a empresa, que já está fazendo a correção, sem
nenhum custo para a prefeitura”, escreveu Igor no X, antigo Twitter. A
diferença entre as duas manifestações dispensa muita interpretação.
Segundo a prefeitura, a intervenção na avenida Nossa Senhora
de Nazaré contempla o trecho entre as avenidas Assis de Vasconcelos e Alcindo
Cacela, com 1,7 quilômetro de extensão e 14 metros de largura. Estão previstas
272 toneladas de asfalto, com investimento de R$ 3.067.085. A obra começou na
semana passada.
Depois das críticas, todo o trecho que apresentou problema
será refeito, segundo o prefeito: o asfalto já colocado será retirado, haverá
raspagem do excesso, correção do nivelamento e nova aplicação. Sem custo
adicional para a prefeitura, garante Igor. Os moradores, em nome de Nossa
Senhora de Nazaré - e do Círio que se aproxima - terão de fazer um esforço para
acreditar na promessa.
A Agência Belém, em reportagem publicada na quarta-feira,
30, apresentou a intervenção como parte da preparação do percurso do Círio. “O
percurso do Círio de Nazaré está recebendo uma intervenção para melhorar as
condições de tráfego antes da maior festividade religiosa da cidade”, diz o
texto. A justificativa oficial também é conhecida: melhorar a trafegabilidade e
oferecer mais segurança a quem utiliza a avenida diariamente e ao público que
passará pelo local durante as celebrações.
É justamente aí que a avenida Nazaré deixa de ser apenas um
caso de obra mal executada - e passa a ser uma janela para olhar Belém.
O episódio também expõe outro personagem que ganhou
importância na fiscalização cotidiana das cidades: as redes sociais. Sem elas,
muitos problemas urbanos continuariam invisíveis por muito mais tempo. No caso
da avenida Nazaré, foi o perfil Amazônia Urbana, no Instagram, que chamou
atenção para o desnível entre o novo asfaltamento e as calçadas. A publicação
ganhou repercussão, chegou a outras redes, provocou discussões e acabou nas
emissoras de televisão.
Na terça-feira, 29, durante reportagem da TV Liberal sobre a
retirada do asfalto, uma mulher entrevistada chegou a se desequilibrar ao
mostrar o tamanho do espaço aberto entre a pista e a calçada. A imagem disse
mais que qualquer discurso técnico. Mas também levantou uma pergunta simples:
quantos outros pontos da cidade estão esperando uma câmera de celular para que
alguém perceba?
O desnível da avenida Nazaré chamou atenção porque ocorre às
vésperas do Círio e poderia representar risco para os milhares de romeiros que
participarão da Trasladação e da procissão, mas o problema não nasceu ali.
Desníveis semelhantes podem ser encontrados em vários pontos
de Belém, especialmente nas áreas mais antigas do Centro, onde a sucessão de
recapeamentos foi elevando o nível da pista em relação às calçadas.
Na via entre o edifício Manoel Pinto de Souza e a Praça da
República, por exemplo, o desnível é tão grande que duas placas de ferro foram
colocadas para permitir a passagem de pedestres em direção à praça. O problema
é antigo - durante as procissões, quando a chuva de papel picado das homenagens
a Nossa Senhora de Nazaré cobre a pista e dificulta a percepção do terreno, o
risco fica ainda menos visível.
Na Governador José Malcher e na Gentil Bittencourt também há
trechos semelhantes. No Boulevard Castilho França, entre o Mercado de Carne e o
Solar da Beira, a situação chegou a outro nível: o desnível acumulado ao longo
dos anos foi vencido com uma pequena escada de três degraus. Três degraus na calçada para vencer o excesso
de asfalto na rua.
Talvez esteja aí a questão que sobra depois da discussão
sobre a avenida Nazaré. Se a correção atual realmente não terá custo para a
prefeitura, ótimo. É o que se espera de uma obra que precisa ser entregue
conforme o projeto. Mas quem fiscaliza para que o mesmo problema não continue
sendo repetido pela cidade inteira? Nazaré pode ser apenas o caso que chamou
atenção. O verdadeiro problema está espalhado pelas ruas de Belém, inclusive
por onde passam as maiores manifestações do Círio. São desníveis que podem
parecer pequenos no cotidiano, mas ganham outra dimensão quando milhares de
pessoas ocupam as ruas.
Resumo da ópera: aparentemente, o asfalto não precisa ser
“Sonrisal” para subir; basta uma camada sobre a outra.

• Wesley Costa Jr (foto). não está mais na TV Norte/SBT
Pará. A emissora informou que o desligamento ocorreu “em comum acordo”. O
jornalista estava afastado depois de manifestações nas redes em apoio a
candidata ao governo.
• Nas redes, circulam versões de que denúncias antigas
contra ele teriam pesado na decisão. Até aqui, versão de rede social é versão
de rede social - não sentença.
• O Sindicato de Enfermagem e Trabalhadores da Saúde voltou
a denunciar demissões na Sesma. Segundo a entidade, os desligamentos foram
retomados em 18 de setembro, inclusive atingindo trabalhadores que haviam sido
readmitidos em julho após acordo com o município.
• O caso já foi levado ao Ministério Público. Agora é
acompanhar se o acordo vale para todos ou só até a próxima lista de demissões.
•Um menino de dois
anos saiu de uma creche particular de Belém com ferimentos no rosto. Imagens
mostram outra criança mordendo e arranhando o garoto, aparentemente sem adulto
por perto.
•A Polícia Civil requisitou as gravações e ouviu
funcionários. A investigação vai dizer quem responde pelo quê. Mas a pergunta é
imediata: numa creche, quanto estrago pode produzir uma criança sem supervisão
durante dois minutos? O rosto do menino já deu a resposta.
•Fernanda Melchionna acionou a PGE contra plataforma
divulgada por Luciano Huck que cruza as posições de eleitores e candidatos. A
deputada vê possível propaganda irregular.
• Nova lei transfere
ao Comitê Brasileiro de Clubes 0,01% da arrecadação de loterias como Mega-Sena
e Quina. O dinheiro financiará a capacitação de gestores esportivos.
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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