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ACHADO DO CÍRIO

Em Belém, o asfalto sobe e calçada some; desníveis de rua estão por toda a cidade

Recapeamento da avenida Nazaré expôs um problema antigo de Belém: ruas onde camadas de asfalto foram elevando a pista e criando desníveis que ameaçam pedestres, inclusive no trajeto do Círio.

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  • Da Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 01/10/26 09:00
Em Belém, o asfalto sobe e calçada some; desníveis de rua estão por toda a cidade
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diferença entre duas falas do prefeito Igor Normando, em menos de uma semana, revelou mais do que uma mudança de posição sobre o recapeamento da avenida Nossa Senhora de Nazaré. Expôs um problema que está muito além daquele trecho: em Belém, o asfalto sobe e, aos poucos, a calçada desaparece.

Caso da avenida Nazaré chamou atenção porque ocorre às vésperas do Círio, mas se repetem em vários pontos de Belém/Fotos: Divulgação.
Na primeira manifestação, em meio às obras, máquinas pesadas por todos os lados e o asfalto sendo aplicado, o prefeito defendeu o serviço. Diante das críticas ao enorme desnível que ficaria entre a pista e a calçada, afirmou que aquilo não era “asfalto Sonrisal”, mas material de excelente qualidade.

Menos de três dias depois, as redes sociais mostraram que a discussão não era exatamente sobre a qualidade do asfalto, mas sobre a execução do serviço. O que para alguns parecia apenas um desnível virou, na ironia dos internautas, uma espécie de “trincheira” capaz até de receber saltos de crossfit. E o prefeito voltou às redes.

“Não tenho compromisso com o erro. Assim que constatamos que o nivelamento do asfalto na avenida Nazaré não estava seguindo o que foi previsto no projeto, notificamos a empresa, que já está fazendo a correção, sem nenhum custo para a prefeitura”, escreveu Igor no X, antigo Twitter. A diferença entre as duas manifestações dispensa muita interpretação.

Mais de R$ 3 milhões

Segundo a prefeitura, a intervenção na avenida Nossa Senhora de Nazaré contempla o trecho entre as avenidas Assis de Vasconcelos e Alcindo Cacela, com 1,7 quilômetro de extensão e 14 metros de largura. Estão previstas 272 toneladas de asfalto, com investimento de R$ 3.067.085. A obra começou na semana passada.

Depois das críticas, todo o trecho que apresentou problema será refeito, segundo o prefeito: o asfalto já colocado será retirado, haverá raspagem do excesso, correção do nivelamento e nova aplicação. Sem custo adicional para a prefeitura, garante Igor. Os moradores, em nome de Nossa Senhora de Nazaré - e do Círio que se aproxima - terão de fazer um esforço para acreditar na promessa.

A Agência Belém, em reportagem publicada na quarta-feira, 30, apresentou a intervenção como parte da preparação do percurso do Círio. “O percurso do Círio de Nazaré está recebendo uma intervenção para melhorar as condições de tráfego antes da maior festividade religiosa da cidade”, diz o texto. A justificativa oficial também é conhecida: melhorar a trafegabilidade e oferecer mais segurança a quem utiliza a avenida diariamente e ao público que passará pelo local durante as celebrações.

É justamente aí que a avenida Nazaré deixa de ser apenas um caso de obra mal executada - e passa a ser uma janela para olhar Belém.

E se não fosse a rede?

O episódio também expõe outro personagem que ganhou importância na fiscalização cotidiana das cidades: as redes sociais. Sem elas, muitos problemas urbanos continuariam invisíveis por muito mais tempo. No caso da avenida Nazaré, foi o perfil Amazônia Urbana, no Instagram, que chamou atenção para o desnível entre o novo asfaltamento e as calçadas. A publicação ganhou repercussão, chegou a outras redes, provocou discussões e acabou nas emissoras de televisão.

Na terça-feira, 29, durante reportagem da TV Liberal sobre a retirada do asfalto, uma mulher entrevistada chegou a se desequilibrar ao mostrar o tamanho do espaço aberto entre a pista e a calçada. A imagem disse mais que qualquer discurso técnico. Mas também levantou uma pergunta simples: quantos outros pontos da cidade estão esperando uma câmera de celular para que alguém perceba?

No caminho do Círio

O desnível da avenida Nazaré chamou atenção porque ocorre às vésperas do Círio e poderia representar risco para os milhares de romeiros que participarão da Trasladação e da procissão, mas o problema não nasceu ali.

Desníveis semelhantes podem ser encontrados em vários pontos de Belém, especialmente nas áreas mais antigas do Centro, onde a sucessão de recapeamentos foi elevando o nível da pista em relação às calçadas.

Na via entre o edifício Manoel Pinto de Souza e a Praça da República, por exemplo, o desnível é tão grande que duas placas de ferro foram colocadas para permitir a passagem de pedestres em direção à praça. O problema é antigo - durante as procissões, quando a chuva de papel picado das homenagens a Nossa Senhora de Nazaré cobre a pista e dificulta a percepção do terreno, o risco fica ainda menos visível.

Na Governador José Malcher e na Gentil Bittencourt também há trechos semelhantes. No Boulevard Castilho França, entre o Mercado de Carne e o Solar da Beira, a situação chegou a outro nível: o desnível acumulado ao longo dos anos foi vencido com uma pequena escada de três degraus.  Três degraus na calçada para vencer o excesso de asfalto na rua.

Quem fiscaliza?

Talvez esteja aí a questão que sobra depois da discussão sobre a avenida Nazaré. Se a correção atual realmente não terá custo para a prefeitura, ótimo. É o que se espera de uma obra que precisa ser entregue conforme o projeto. Mas quem fiscaliza para que o mesmo problema não continue sendo repetido pela cidade inteira? Nazaré pode ser apenas o caso que chamou atenção. O verdadeiro problema está espalhado pelas ruas de Belém, inclusive por onde passam as maiores manifestações do Círio. São desníveis que podem parecer pequenos no cotidiano, mas ganham outra dimensão quando milhares de pessoas ocupam as ruas.

Resumo da ópera: aparentemente, o asfalto não precisa ser “Sonrisal” para subir; basta uma camada sobre a outra.

Papo Reto

• Wesley Costa Jr (foto). não está mais na TV Norte/SBT Pará. A emissora informou que o desligamento ocorreu “em comum acordo”. O jornalista estava afastado depois de manifestações nas redes em apoio a candidata ao governo.

• Nas redes, circulam versões de que denúncias antigas contra ele teriam pesado na decisão. Até aqui, versão de rede social é versão de rede social - não sentença.

• O Sindicato de Enfermagem e Trabalhadores da Saúde voltou a denunciar demissões na Sesma. Segundo a entidade, os desligamentos foram retomados em 18 de setembro, inclusive atingindo trabalhadores que haviam sido readmitidos em julho após acordo com o município.

• O caso já foi levado ao Ministério Público. Agora é acompanhar se o acordo vale para todos ou só até a próxima lista de demissões.

 •Um menino de dois anos saiu de uma creche particular de Belém com ferimentos no rosto. Imagens mostram outra criança mordendo e arranhando o garoto, aparentemente sem adulto por perto.

•A Polícia Civil requisitou as gravações e ouviu funcionários. A investigação vai dizer quem responde pelo quê. Mas a pergunta é imediata: numa creche, quanto estrago pode produzir uma criança sem supervisão durante dois minutos? O rosto do menino já deu a resposta.

•Fernanda Melchionna acionou a PGE contra plataforma divulgada por Luciano Huck que cruza as posições de eleitores e candidatos. A deputada vê possível propaganda irregular.

•  Nova lei transfere ao Comitê Brasileiro de Clubes 0,01% da arrecadação de loterias como Mega-Sena e Quina. O dinheiro financiará a capacitação de gestores esportivos.

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.