5 milhões trocaram emprego formal pelo trabalho por conta própria no Brasil Data center de 100 MW sob pressão em Belém mesmo antes da licença ambiental AtlasIntel publica 2 pesquisas favoráveis ao governo do Pará e é cobrada pela Justiça
A RAIZ DO CAOS

Conteúdo do celular de Vorcaro é mais ou menos importante do que o "conteúdo do próprio Supremo"?

Talvez esta seja a pergunta que o Brasil deveria estar fazendo diante do terremoto provocado pelo Caso Master.

  • 469 Visualizações
  • Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 02/09/26 09:00
Conteúdo do celular de Vorcaro é mais ou menos importante do que o
O


celular de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, revelou conversas, encontros, relações financeiras e uma proximidade com autoridades que agora precisa ser explicada. Entre os personagens está Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal. O material, analisado pela Polícia Federal e levado ao conhecimento público pelo ministro André Mendonça, é suficientemente grave para provocar o exame do caso pelo plenário da Corte.

 

Ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça protagonizam cenas patéticas e quase chegam às vias de fatos/Fotos-Redes Sociais.

Mas existe uma pergunta anterior - e talvez muito mais incômoda: o que o celular de Vorcaro está revelando sobre as entranhas do Supremo? Uma coisa é o conteúdo de um aparelho apreendido pela Polícia Federal; outra, muito maior, é o “conteúdo” institucional que começa a aparecer quando um ministro determina o aprofundamento de uma apuração que alcança outro ministro, quando o procurador-geral da República pede a nulidade dessa investigação e quando os dois magistrados chegam, segundo relatos publicados pela imprensa, ao limite do confronto pessoal. Nessa fronteira, o Caso Master deixa de ser apenas o caso de um banqueiro e passa a ser o caso de uma instituição.

Supremo no espelho

André Mendonça determinou o levantamento do sigilo de documentos da investigação e decidiu levar ao plenário elementos que envolvem Moraes. Entre eles estão mensagens e registros extraídos do celular de Vorcaro, inclusive conversas com um contato identificado como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.

O material também menciona outras autoridades, entre elas Paulo Gonet, procurador-geral da República, e Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal. Gonet reagiu pedindo a nulidade da investigação conduzida por Mendonça. Sustenta que o ministro não poderia, sozinho, determinar diligências que alcançassem outro integrante da Corte e que a questão deveria seguir os procedimentos internos do Supremo.

Está formado, portanto, um daqueles paradoxos que a República costuma produzir nos seus momentos mais difíceis: o juiz vira objeto de questionamento, o juiz que o questiona também é questionado e o árbitro da disputa é a própria instituição em que os dois atuam.

A pergunta deixa de ser apenas o que havia no celular de Vorcaro. Passa a ser quem pode investigar quem dentro do Supremo - e até onde pode ir essa investigação.

O espanto nacional

A reação da imprensa nacional dá a dimensão do que aconteceu. O episódio passou rapidamente de um capítulo do Caso Master para uma crise interna do STF. A linguagem utilizada na cobertura deixou de ser a dos procedimentos jurídicos e financeiros e passou a incorporar expressões como “guerra interna”, “racha” e “crise”.

E há ainda o relato de que Moraes e Mendonça protagonizaram uma discussão acalorada no ambiente do Supremo que teria chegado muito perto das vias de fato. Se confirmado em todos os seus detalhes, seria um acontecimento extraordinário. Mas, mesmo sem ele, o quadro já é suficientemente perturbador: ministros da mais alta Corte do País em confronto enquanto uma investigação envolve relações de um deles com o principal personagem de um dos maiores escândalos financeiros recentes. Não é difícil entender o espanto do cidadão comum.

O Supremo sempre esteve no centro das grandes disputas nacionais. Nos últimos anos, tornou-se protagonista de decisões que atravessaram a política, as eleições, as redes sociais e a própria relação entre os Poderes. Mas existe uma diferença entre arbitrar a crise e parecer mergulhado nela.

A brecha

É essa diferença que o Caso Master abriu. Não se trata de antecipar culpa, muito menos de transformar mensagens de um investigado em sentença. Trata-se de reconhecer que o episódio produziu uma fissura na percepção pública sobre a Suprema Corte - e essa fissura tem consequências. Quem já desconfia do Supremo encontrou novos motivos para desconfiar. Quem o defende passou a enxergar uma ofensiva contra a Corte. Quem estava no meio foi empurrado para algum dos lados.

Em outras palavras, a crise encontrou uma sociedade já profundamente polarizada e entregou a ela mais um motivo para escolher trincheiras. Em ano eleitoral, isso não é detalhe.

O Brasil já convive com uma disputa política em que quase tudo vira combustível para a radicalização. Agora, o próprio Supremo aparece no centro de uma história que mistura banqueiro investigado, Polícia Federal, Procuradoria-Geral da República, relações com ministros e uma disputa interna que chegou ao plenário.

O risco institucional talvez seja maior que o conteúdo de qualquer mensagem, pois, mensagens podem ser explicadas, contestadas, contextualizadas e até desmentidas. A perda de confiança numa instituição é outra coisa.

E talvez esteja aí a verdadeira raiz do caos: não apenas aquilo que o celular de Vorcaro revelou sobre o poder, mas aquilo que o episódio está revelando sobre o Brasil que olha para esse poder. O problema, afinal, pode não estar apenas no que havia dentro do celular de Vorcaro. Pode estar no que o celular de Vorcaro conseguiu revelar sobre o Brasil que existe do lado de fora dele.

Papo Reto

As mensagens de Daniel Vorcaro encontradas pela PF mostram ao menos seis encontros com Alexandre de Moraes, alguns articulados pelo ex-ministro Fábio Faria. 

• “Careca 19h30”, “o ministro Alexandre chegou” e “vou encontrar Moraes perto de casa” dão ao Caso Master um tempero que dispensa legenda. O problema é que, agora, até a intimidade entre o banqueiro e o ministro entrou na investigação.

A oposição já deve ter criado um modelo padrão de pedido de impeachment contra Alexandre de Moraes (foto). É só abrir o Word, atualizar o número e trocar a acusação.

•Agora é “tráfico de influência” por causa do Banco Master. Com tantas tentativas, o único tráfico que parece prosperar é o de papel protocolado - e a única obstrução, a da paciência alheia.

Um grupo de candidatos a deputado estadual e federal pelo PT em Minas Gerais ameaça recorrer à Justiça contra o próprio partido após ficar sem recursos do fundo eleitoral destinados às campanhas.

•Segundo os relatos, 25 candidatos mineiros, sendo 11 a deputado estadual e 14 a deputado federal, foram enquadrados em uma faixa de distribuição que não prevê repasses do fundo. 

A situação provocou revolta entre integrantes da própria legenda, que passaram a questionar os critérios adotados pela Executiva Nacional do PT.

•Parte do grupo afirma desconfiar do destino dos recursos e cobra maior transparência na divisão do dinheiro. Até o momento, porém, não há comprovação de que valores tenham sido efetivamente roubados ou desviados. 

Depois de faturar R$296,5 milhões em contratos públicos, vejam só, a pesquisadora Nexus não negou fogo: mostra Lula sempre na frente e em todos os cenários. Mera coincidência estatística.

Mais matérias OLAVO DUTRA

img
Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.