O modelo 6x1 veio do período de industrialização do século XX e, por trás do desejo de mudança, há uma nova visão sobre o propósito do trabalho
O movimento pelo fim da chamada escala 6x1 (seis dias de trabalho por um de descanso) e pela redução da jornada de trabalho no Brasil não é um fato isolado. Por trás da pauta, existe uma confluência de fatores sociais, econômicos, tecnológicos e políticos que a transformaram em um dos debates mais relevantes do momento.
O modelo 6x1 veio do período de industrialização do século XX e, por trás do desejo de mudança, há uma nova visão sobre o propósito do trabalho:
Gerações mais jovens (Z e Millennials), diferentemente das gerações anteriores, que viam o trabalho como centro da identidade e sacrifício necessário, priorizam saúde mental, tempo livre e realização pessoal, por isso invocam que a falta de descanso adequado pode estar associada a doenças cardiovasculares, ansiedade e até depressão.
Por sua vez, os trabalhadores do comércio e de serviços, que folgam apenas durante a semana (segunda a quinta), alegam viver em "descolamento social", não conseguindo conviver com familiares e amigos que folgam no sábado/domingo.
Não podemos ignorar que o Brasil vive uma transição demográfica e tecnológica que torna a redução da jornada uma questão de tempo, já que a diminuição da natalidade, o modelo que exigia longas jornadas para produzir muito, está sendo substituído por tecnologia.
A discussão já não é mais "como produzir com muita mão de obra", mas "como distribuir o tempo de trabalho e a renda em um mundo onde máquinas e computadores fazem grande parte do serviço".
Paradoxalmente, o movimento pelo fim da 6x1 também é uma reação ao avanço do trabalho por aplicativo e da informalidade, a tal uberização.
É fato que o trabalhador formal frequentemente se vê preso a um salário baixo e sem tempo para quase nada, enquanto vê o trabalhador de aplicativo, por exemplo, com "liberdade" de horário, ainda que sem direitos.
A pauta surge, então, como uma tentativa de tornar o trabalho formal mais atraente. Ou seja, se o vínculo CLT não oferece mais segurança absoluta, ele precisa ao menos oferecer qualidade mínima de vida.
Por muito tempo, o argumento contra a redução da jornada era puramente econômico: "Vai quebrar o País e gerar desemprego". Esse discurso acabou se fragilizado por três motivos: (1) Países como França, Alemanha e Portugal experimentaram reduções de jornada sem colapso econômico; (2) o Brasil é um dos países que mais horas trabalha e um dos que menos produz por hora trabalhada e a tese é que trabalhar cansado e desmotivado gera retrabalho e baixa eficiência; e (3) softwares e sistemas atuais permitem que o trabalho seja mais intenso em um período menor, compensando a carga horária reduzida.
Atualmente, a Constituição permite jornada de até 44 horas semanais e 220 horas mensais. A proposta não é simplesmente "diminuir" por lei, mas revogar o parágrafo que permite horas extras.
O objetivo estratégico da PEC que está em dircussão é instituir 36 horas semanais (4 dias de trabalho). Mesmo que não seja aprovado o 4x3 integral, o simples fato de discutir já abriu margem para negociações intermediárias, como o fim da escala 6x1 por acordo coletivo ou a redução do limite para 40 horas.
Para o empresário, reduzir a jornada sem reduzir salário aumenta, evidentemente, o custo da hora trabalhada. Num cenário econômico catastrófico e sem perspectiva de melhorias incorporar custo extra em atividades que já operam no quase vermelho seria combustível a mais de fechamento das empresas.
A redução de impostos para as empresas que acreditarem que a produtividade aumentará poderia ser um meio termo interessante, porém, quem acredita que o governo e sua sanha arrecadadora aceitaria isso?
Finalmente, acredito que o fim da escala 6x1 traduza uma insatisfação histórica sobretudo do setor de serviços somada à potência das redes sociais. É uma pauta que une o desgaste físico real de milhões de brasileiros com a revolução tecnológica que torna o trabalho intensivo em horas cada vez mais obsoleto.
Não se trata apenas de um "dia a menos", mas da reinvenção do contrato social do trabalho no Brasil. A discussão migrou do "é possível?" para "até quando será sustentável manter o modelo atual?”.
Foto: Freepik
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Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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