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CONTROLE

Brasília enquadra CDP e aperta cerco a Jardel Rodrigues nas Docas do Pará

Entrada de Wilson Nobre no comando do Conselho da companhia amplia influência do MDB nacional sobre a estrutura portuária.

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  • Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 08/06/26 11:00
Brasília enquadra CDP e aperta cerco a Jardel Rodrigues nas Docas do Pará
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chegada do advogado e administrador Wilson Eurico Nobre da Silva à presidência do Conselho de Administração da Companhia Docas do Pará (CDP) caiu como intervenção política de Brasília sobre a estrutura portuária paraense - e deixou o presidente da estatal, Jardel Rodrigues da Silva, sob forte pressão nos bastidores.

 

Articulação do MDB nacional nomeia Wilson Nobre para o Conselho Diretor e limita poderes do presidente da CDP, Jardel Rodrigues/Fotos: Divulgação.

Acostumado a operar com autonomia, Jardel viu fracassarem as tentativas de barrar mudanças articuladas pelo MDB nacional na composição do Conselho de Administração e também na diretoria Administrativa e Financeira da companhia. O recado vindo da capital federal foi claro: a mudança tem respaldo da cúpula nacional do MDB, de ministros de Estado, senadores influentes e setores com trânsito em tribunais superiores.

Wilson Nobre deixou a chefia da Assessoria do Ministério dos Portos e Aeroportos para assumir o comando do Conselho da CDP - órgão que, na prática, concentra o poder deliberativo sobre contratos, projetos, investimentos e decisões estratégicas da estatal. Na estrutura da companhia, atos da presidência e das diretorias dependem da anuência do colegiado.

Com passagem por cargos estratégicos no governo do Distrito Federal, Câmara dos Deputados e governo federal, Wilson chega com a missão de aproximar a CDP dos centros decisórios de Brasília, justamente no momento em que os portos amazônicos ganharam peso estratégico na agenda logística nacional.

Resultados pífios

Interlocutores ligados ao setor avaliam que o avanço federal sobre a companhia também decorre da crescente insatisfação com os resultados da gestão de Jardel Rodrigues.

Dentro do Ministério dos Portos e Aeroportos, a avaliação sobre a condução da CDP estaria longe de ser positiva. O desempenho da estatal nos projetos ligados à COP30 gerou críticas internas, principalmente pelo atraso e pelas metas não alcançadas em obras consideradas prioritárias, como o Porto do Outeiro.

Nos bastidores, Jardel recebeu conselhos para reduzir a resistência política. O alerta partiu do suplente de senador Josenir Gonçalves Nascimento, ligado ao senador Beto Faro, do PT. A referência usada foi o episódio envolvendo o ex-ministro e ex-secretário de Transportes do Pará Pádua Andrade, afastado da Autoridade Portuária de Santos após perda de sustentação no Conselho de Administração.

Ataque vertical

O ambiente piorou depois do relato feito pela ex-presidente Dilma Rousseff ao presidente Lula. Atual presidente do Banco do Brics, Dilma teria ouvido, em reunião realizada em Xangai, reclamações de representantes chineses sobre dificuldades de interlocução com a direção da CDP em projetos ligados ao corredor logístico Brasil-China, no chamado Arco Norte.

Segundo interlocutores, investidores estrangeiros demonstraram insatisfação com entraves nas negociações para implantação e modernização da infraestrutura portuária paraense. O resultado teria provocado perda de espaço do Pará para estados concorrentes, como Amapá, Maranhão e Bahia, dentro da disputa por novos investimentos logísticos.

Barcarena quebrado

No centro das críticas aparece o Porto de Vila do Conde, em Barcarena, considerado estratégico para o escoamento de cargas na Amazônia, mas ainda visto por setores empresariais como estrutura subutilizada e carente de modernização. A leitura predominante em Brasília é de que a governança da CDP deverá passar por acompanhamento cada vez mais rigoroso. Com o avanço do Arco Norte e o interesse internacional crescente na logística amazônica, os portos paraenses deixaram de ser apenas ativos regionais e passaram a integrar o tabuleiro estratégico nacional.

Redução de espaços

Para observadores da cena, o governo federal e grupos políticos nacionais decidiram reduzir espaços de atuação isolada de dirigentes regionais em áreas consideradas sensíveis financeira e politicamente. A mudança alcança setores estratégicos: portos; logística; infraestrutura; bancos públicos; autarquias federais; e fundos administrativos. Em vários desses ambientes, cresce a influência de conselhos deliberativos, diretorias técnicas e instâncias de supervisão que, na prática, passaram a dividir ou até limitar o poder dos gestores locais.

O novo desenho produz efeitos políticos imediatos. Lideranças regionais que antes operavam com relativa liberdade começam a enfrentar monitoramento mais rígido, cobrança por alinhamento institucional e interferência direta de grupos partidários sediados em Brasília.

Uma disputa invisível

A mudança também expõe uma disputa menos visível dentro das próprias estruturas federais: o choque entre interesses locais e estratégias nacionais de controle político, administrativo e financeiro. No português claro, o poder mudou de sala.

Quem acompanha o funcionamento dessas estruturas afirma que as decisões mais relevantes já não passam necessariamente pelos gabinetes principais. Muitas começam - e terminam - em conselhos, câmaras técnicas e ambientes colegiados de baixa exposição pública, mas com enorme capacidade de influência.

O modelo reduz riscos políticos para Brasília, distribui responsabilidades administrativas e amplia o controle sobre contratos, investimentos e decisões estratégicas. Ao mesmo tempo, provoca irritação silenciosa em grupos regionais acostumados a maior protagonismo dentro dessas máquinas públicas. Nos corredores de algumas dessas instituições, a avaliação já virou comentário recorrente: há presidente que continua mandando na fotografia, mas não necessariamente no orçamento, nos contratos ou nas decisões centrais. E esse processo, segundo interlocutores da própria máquina federal, está apenas começando.

Papo Reto

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.