"Seria lindo, né, aproveitar a COP e olhar pra cá, pro bairro? Mas aqui é assim mesmo", diz Edileuza Conceição, moradora da área.
elém está bonita, vistosa, pronta para o mundo. Foram quase R$ 5 bilhões em obras e maquiagem para receber a COP30, e o visitante percebe: as fachadas históricas estão lavadas, o centro revive, o Ver-o-Peso voltou a brilhar. A cidade ganhou cara de vitrine -, mas, como toda vitrine, esconde o estoque no fundo.


Porque, para além do cenário montado para as câmeras, há outra Belém, a que não cabe nos roteiros oficiais da conferência. No Entroncamento, por exemplo - o ponto onde tudo começa e termina -, o tempo parou. O local é o coração do trânsito da capital: dali partem as avenidas Almirante Barroso, Pedro Álvares Cabral, Augusto Montenegro e a BR-316, artéria que leva Belém ao interior e ao resto do País. Em teoria, deveria ser a porta de entrada da cidade verde; na prática, virou um amontoado de feiras, barracos e desordem.
O contraste é cruel: quem chega pela rodovia encontra primeiro o caos, não o cartão-postal. E quem mora ali, como Edileuza Conceição, universitária e moradora antiga, já não se surpreende.
- Seria lindo, né, aproveitar a COP e olhar pra cá, pro bairro? Mas aqui é assim mesmo. Tudo o que você vê teve sacrifício de morador. Já estamos acostumados com isso”, resume ela.
De fato, os governos passaram por lá. Reformou o corredor do BRT Metropolitano, instalou abrigos de ônibus, plantou árvores - plantou? Mas foi só o “traçado da vitrine”: um corredor bonito que termina abruptamente na poeira.
- Quando você chega de carro, até que parece bonito, padrão COP30. Mas basta virar a esquina pra ver o que é a vida real”, diz Edileuza, rindo sem graça.
O Entroncamento, símbolo da Belém que não chegou à COP, é uma ironia em concreto. A poucos metros dali está o Monumento à Cabanagem, obra de Oscar Niemeyer erguida em homenagem à revolta popular do Século XIX. No entorno da escultura que celebra o povo, o próprio povo sobrevive entre gambiarras e sujeira.
Enquanto os líderes globais discutem o futuro do planeta sob o ar-condicionado do Parque da Cidade, feirantes enfrentam calor e abandono no mesmo ponto que deveria ser a “porta sustentável da Amazônia”. O discurso e a paisagem, ali, seguem em paralelo - e não se cruzam.
Belém, que se quis vitrine da transição verde, continua devendo a si mesma a transição mais simples: da promessa à prática. E quando os refletores da COP se apagarem, o Entroncamento voltará a ser o que sempre foi - o lugar onde a cidade começa, e onde o poder termina.

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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