TRE já notificou a Secom e instituto, ambos investigados; ação questiona contrato de R$ 1,59 milhão firmado oito meses antes da campanha.
Justiça Eleitoral já não está apenas olhando de longe a polêmica envolvendo a AtlasIntel e o governo do Pará. A Ação de Investigação Judicial Eleitoral que apura possíveis abusos de poder político e econômico, conduta vedada e uso indevido dos meios de comunicação avançou para uma etapa mais incômoda: todos os envolvidos já foram notificados e a própria Justiça determinou que a Secretaria de Comunicação do governo e o instituto prestassem informações no prazo de 24 horas. Segundo os documentos que integram o processo, as determinações judiciais não foram obedecidas.

Trocando em miúdos, a Justiça Eleitoral ficou no “vácuo”. E o contexto em que essas explicações são cobradas da defesa dos investigados Hana Ghassan Tuma, Dirceu Ten Caten Pies, Vera Lucia Alves de Oliveira e Thiago Barros Rodrigues Costa não é trivial. O contrato entre o governo do Pará e a AtlasIntel foi firmado em dezembro de 2025, apenas oito meses antes do início da campanha eleitoral, com valor global de R$ 1,59 milhão, para “monitoramento da opinião pública”, ou seja, pesquisas, sem informar no contrato em quais contextos esse “monitoramento” se daria.
Segundo a ação, até agosto deste ano já haviam sido pagos R$ 936.978,00. E há um detalhe que torna a cronologia ainda mais indigesta: o pagamento realizado em agosto ocorreu poucos dias antes da primeira pesquisa eleitoral da AtlasIntel divulgada durante a atual disputa.
A questão levantada pela AIJE é muito delicada: o que uma empresa contratada pelo governo para monitorar a opinião pública estava produzindo, quem tinha acesso a essas informações e qual era a finalidade desse monitoramento em pleno ano eleitoral? A Justiça perguntou. A resposta, até agora, não veio.
E, enquanto a Justiça cobra essas respostas, a AtlasIntel voltou a aparecer há três dias com uma segunda pesquisa que, assim como a primeira, apresenta números bastante favoráveis ao grupo político que administra o Estado.
É contra alguns nomes desse quadro que a AIJE nº 0601331-61.2026.6.14.0000 tramita no TRE. Os documentos do processo mostram que os envolvidos foram notificados para tomar conhecimento da decisão, apresentar defesa e no prazo de 24 horas cumprir as providências estabelecidas pela relatora, a desembargadora Maria Filomena de Almeida Buarque.
A citação de Vera Lucia Alves de Oliveira, por exemplo, secretária de comunicação do Estado, foi efetivamente cumprida depois de sucessivas tentativas de entrega, tendo sido recebida só ontem pela própria destinatária na sede da Secom. Ou seja: não se trata mais de uma provocação política ou de uma suspeita lançada por adversários. Há uma investigação formal, há uma decisão judicial e há determinações dirigidas aos envolvidos, que não cumpriram. As explicações que a Justiça cobrou continuam faltando.
A negociação tem uma cronologia que chama a atenção. O Contrato nº 12/2025 foi firmado pela Secom com a AtlasIntel em dezembro de 2025, com valor global de R$ 1,59 milhão. O objeto é a prestação de serviço de “monitoramento de opinião pública com metodologia de amostragem proprietária e singular, baseada em recrutamento digital”.
Segundo a AIJE, até agosto de 2026 o Estado havia desembolsado R$ 936.978,00 pelo contrato. O calendário, porém, é o que coloca mais combustível na discussão. O pagamento realizado em agosto ocorreu poucos dias antes da primeira pesquisa eleitoral da AtlasIntel que entrou no radar da atual disputa para o Governo do Pará.
A primeira pesquisa da AtlasIntel, registrada no TRE sob o número PA-04533/2026, foi realizada entre 14 e 19 de agosto, com 1.200 eleitores, e colocou Hana Ghassan à frente de Dr. Daniel por 48,6% a 40,5%.
O levantamento custou R$ 60 mil e foi informado como contratado pela Federação das Associações Comerciais e Empresariais do Pará (Faciapa), e não pelo governo do Estado.
Divulgada na sexta-feira, 11, a nova pesquisa da AtlasIntel volta a apresentar um cenário bastante confortável para o grupo governista. Hana aparece com 48,5%, contra 41,7% de Dr. Daniel, diferença de 6,8 pontos percentuais. No Senado, Helder Barbalho também aparece à frente de Éder Mauro, com 24,9% contra 18,1%.
O problema não é uma pesquisa mostrar Hana na frente. Pesquisa é fotografia, não sentença eleitoral. O que chama atenção é o tamanho do contraste entre esse retrato e levantamentos recentes de outros institutos.
Na Real Time Big Data, divulgada em 8 de setembro, Hana tinha 37% e Dr. Daniel, 35% - empate técnico dentro da margem de erro. Na Quaest, divulgada em 29 de agosto, o cenário também era apertado: Dr. Daniel aparecia com 28% e Hana com 27%.
E é justamente nesse ambiente de disputa acirrada que a AtlasIntel aparece, por duas vezes, produzindo fotografias muito mais confortáveis para o grupo governista. Na primeira, Hana tinha 48,6% contra 40,5% de Daniel. Na segunda, 48,5% contra 41,7%. Nada disso prova irregularidade. Mas também não torna ilegítima a pergunta que a Justiça Eleitoral está fazendo. A AIJE questiona justamente a contratação da AtlasIntel pelo Governo do Pará, por meio da Secretaria de Estado de Comunicação, para realizar monitoramento de opinião pública.
E existe uma pergunta especialmente objetiva: o que a AtlasIntel está monitorando para o governo do Pará? Outra: quem recebe essas informações? E uma terceira, ainda mais importante: há alguma sobreposição entre os dados produzidos para o governo e aqueles utilizados nas pesquisas eleitorais?
A oposição pode fazer denúncia, candidato pode reclamar de pesquisa e coligação pode desconfiar de contrato, mas quando o TRE determina que uma secretaria de Estado e uma empresa privada apresentem informações em 24 horas, a conversa muda de patamar. Há uma investigação formal sobre um contrato de R$ 1,59 milhão, uma empresa que simultaneamente atua no mercado de pesquisas eleitorais e, agora, duas pesquisas com resultados bastante favoráveis aos candidatos ligados ao grupo que administra o Estado. E existe, sobretudo, uma determinação judicial por respostas que não vieram. O silêncio começa a pesar mais do que uma simples pesquisa eleitoral.

•Nos bastidores da campanha no Pará, a avaliação é de que o posicionamento do senador Zequinha Marinho (foto) em relação ao ministro Alexandre de Moraes lhe rendeu dividendos políticos. Foi o único senador paraense a assinar o pedido de impeachment.
•Com a repercussão do caso e a sessão do STF marcada para terça-feira, outros candidatos ao Senado passaram a abraçar a pauta e endurecer o discurso contra Moraes. O movimento alcança até nomes identificados com o campo governista e apoiadores do presidente Lula.
•A leitura nos bastidores é simples: se a posição ajudou Zequinha, ninguém quer deixar essa bandeira exclusivamente em suas mãos. A indignação virou terreno de disputa eleitoral. Na política, quando uma pauta começa a render dividendos, todo mundo quer surfar na onda.
•A Henvil Navegação amplia sua presença no Maranhão com novos equipamentos e promete reduzir o tempo de viagem entre Belém e São Luís. A empresa paraense, que já atua em várias travessias no Estado, incluindo Marajó, Barcarena e Bujaru, começa a olhar com mais atenção para além das fronteiras paraenses.
•Os Correios entraram em greve por tempo indeterminado e o brasileiro já conhece o roteiro: a encomenda atrasa, a conta chega e o contribuinte paga a conta de uma estatal que há anos parece incapaz de entregar eficiência. No fim, a correspondência mais rápida continua sendo a notícia do prejuízo.
•Caiu o sigilo e a crise do STF atravessou a fronteira e o caso Master já expõe o Supremo na imprensa internacional. O constrangimento agora é mundial.
•André Mendonça rebateu Moraes, negando o sigilo parcial no caso Master. No STF, agora até a matemática entrou no plenário: 180 peças viraram mais um capítulo da guerra entre ministros.
•Andrei Rodrigues disse que só cumpriu ordem de Moraes nos relatórios contra Mendonça, com a crise do STF ganhando um novo ingrediente explosivo: ninguém discute mais apenas o apócrifo relatório, mas quem mandou fazê-lo.
•Relator do caso Master e do escândalo dos descontos ilegais no INSS, André Mendonça agora usa colete à prova de balas, carro blindado e tem proteção estendida à família. Quando investigar exige blindagem, o alerta institucional já está no vermelho.
•Juristas e advogados voltam a discutir o modelo de escolha dos ministros do Supremo Tribunal Federal. Os sucessivos embates políticos e ideológicos na Corte alimentam a avaliação de que a indicação exclusiva pelo presidente da República precisa ser repensada.
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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