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TREM MILAGREIRO

A multiplicação das estrelas; ou a física quântica da PM e dos Bombeiros do Pará

Não se trata de discutir se existem bons oficiais: a questão é saber se o número de estrelas corresponde ao número de vagas que a lei permite.

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  • Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 01/10/26 12:00
A multiplicação das estrelas; ou a física quântica da PM e dos Bombeiros do Pará
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á coisas que somente a administração pública é capaz de produzir. Na natureza, um corpo ocupa determinado espaço. Na matemática, uma vaga é uma vaga. Na física, dois corpos não podem simplesmente desaparecer e reaparecer em posições diferentes conforme a conveniência do observador. Na Polícia Militar e no Corpo de Bombeiros do Pará, aparentemente, pode.

PM e Corpo de Bombeiros: tradição institucional e papel que dispensa apresentações, mas promoções contestadas/Fotos: Divulgação-Ilustração.

Um oficial que acompanha a movimentação das duas corporações relata à um mecanismo que, se confirmado documentalmente, merece mais do que uma explicação burocrática: merece uma aula de física quântica aplicada à administração pública. É a multiplicação das estrelas.

Não há vagas, mas...

A tese, em resumo, funciona assim: quando o quadro de oficiais está completo e não há vaga suficiente para determinada promoção, cria-se uma solução administrativa. O oficial é colocado temporariamente à disposição de outro órgão, por um período de aproximadamente 30 dias. Com a saída, abre-se espaço no quadro. A promoção acontece. Depois, o oficial retorna à corporação na condição de excedente. É ou não é uma maravilha?

Na física tradicional, o sujeito saiu porque saiu. Na física quântica da caserna paraense, ele sai, abre uma vaga, é promovido e volta - só que agora como excedente. A vaga, portanto, existiu e não existiu. O oficial estava e não estava. E o quadro, que aparentemente estava cheio, passou a comportar mais uma estrela.

É o equivalente administrativo de colocar 15 litros de água em um balde de dez litros e recomendar ao observador que não olhe para o chão.

A questão, evidentemente, não é saber se um oficial merece ou não ser promovido. Promoção militar é assunto de carreira, mérito, antiguidade, critérios legais e necessidade institucional. A questão é outra: saber se o mecanismo utilizado para produzir a vaga está rigorosamente dentro das regras que disciplinam os quadros da PM e do Corpo de Bombeiros.

Faz que vai e volta

Veja como a história começa a ficar interessante: se o quadro tem limite legal, como uma saída temporária cria uma vaga capaz de produzir promoção definitiva? Se o oficial retorna depois da promoção, o que acontece com o excedente? E, principalmente, qual é a previsão legal que autoriza esse movimento?

São perguntas simples, mas as respostas, provavelmente, exigirão um pouco mais de matemática. É que há uma conta que não fecha apenas com despacho administrativo.

Imagine-se um quadro de oficiais com determinado número de vagas. O quadro chega ao limite. Em vez de aguardar a abertura natural de uma vaga, um oficial é agregado temporariamente. Surge o espaço. Outro sobe. O primeiro retorna. O quadro volta a ter gente onde já não havia lugar. 

Caso resolvido

Milagre? Talvez, mas a administração pública costuma chamar milagres por nomes mais compridos – e há ainda o calendário. A movimentação ocorre em período eleitoral, quando atos administrativos envolvendo pessoal e remuneração exigem atenção redobrada. Isso não significa, por si só, que exista irregularidade. Significa apenas que a cronologia merece ser examinada, especialmente quando promoções, agregações, exonerações, nomeações ou movimentações funcionais acontecem em sequência.

A PM está comemorando 208 anos. O Corpo de Bombeiros também carrega uma longa tradição institucional e um papel que dispensa apresentações. São corporações que trabalham com hierarquia, disciplina, carreira e regras próprias. Justamente por isso, a matemática importa. Não se trata de discutir se existem bons oficiais, se há direito à promoção ou se a corporação precisa renovar seus quadros. Trata-se de descobrir se o número de estrelas que aparece no quadro final corresponde ao número de vagas que a lei permite.

Se corresponde, ótimo. A física quântica pode voltar para os livros. Se não corresponde, alguém terá de explicar como uma corporação consegue fazer aquilo que nenhum professor de matemática recomendaria a seus alunos: aumentar o número de lugares sem aumentar o tamanho da sala.

Parece que, no serviço público, há uma regra que continua sendo mais importante do que qualquer teoria quântica: a conta precisa fechar.

Papo Reto

•Lula (foto) disse em Belém que não haverá dragagem do Tapajós enquanto estiver na Presidência. A reivindicação vinha de indígenas contrários também às concessões de hidrovias. No mesmo discurso, defendeu a implosão do Pedral do Lourenço, no Tocantins, para ampliar a navegação. Tapajós não. Tocantins, sim. A lógica merece explicação.

•E Lula voltou a deixar uma frase atravessada no palanque de Belém. Ao falar sobre prevenção do câncer de próstata, disse que “as mulheres aprendem a tomar toque desde pequenas”. 

•A frase viralizou e provocou reação política. O contexto era o exame de próstata, mas a escolha das palavras abriu uma avenida para a controvérsia. Em política, às vezes o discurso termina e uma frase continua trabalhando.

•Parece que agora vai: a orla de Icoaraci começa a ganhar forma com a revitalização. Calçadão novo, espaço renovado e promessa de devolver o lugar ao lazer. Só falta combinar com os bares. 

•A reclamação nas redes é simples: de que adianta fazer calçada para pedestre se mesas e cadeiras ocuparem o caminho?

•Bragança vai às ruas hoje em defesa da pesca do pargo. Empresários, lideranças e trabalhadores prometem uma manifestação contra as novas regras de captura.

•O Ministério da Pesca informou que a temporada de 2026 foi encerrada em 19 de setembro, depois de as capturas alcançarem 90% do limite anual de 2.750 toneladas. Para quem vive do pargo, a discussão não é estatística: é sobrevivência econômica.

•Willer Tomaz registrou quase R$ 5 bilhões em perdas e R$ 4,8 bilhões em ganhos na Blaze em 2025. Terminou R$ 163 milhões no vermelho e foi à Justiça tentar recuperar o prejuízo. Tigrinho, diante disso, é quase diminutivo ofensivo.

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.