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EFEITO COLATERAL

A eleição não pariu a crise, mas a crise anunciada escalou e o Supremo está nu

Analistas atribuem à eleição a politização da Corte, mas os fatos mostram uma crise que começou antes do calendário eleitoral e agora alcança o próprio coração do tribunal

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  • Redação | Por Olavo Dutra
  • 04/09/26 11:30
A eleição não pariu a crise, mas a crise anunciada escalou e o Supremo está nu
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omeçou a aparecer na imprensa nacional uma explicação confortável para o terremoto que sacode o Supremo Tribunal Federal: 2026 é ano eleitoral, a Corte estaria excessivamente politizada e os grupos políticos teriam transformado ministros em protagonistas da disputa pelo poder. Pode ser - o problema é que essa explicação chega tarde.

 

Retrato do Brasil: ministro pede investigação de ministro, e ministro dá prazo a ministros para esclarecer denúncias entre ministros/Fotos: Divulgação.

Muito antes de o calendário eleitoral produzir seus primeiros grandes confrontos, o Supremo já vinha acumulando controvérsias, decisões questionadas, conflitos sobre os limites de atuação dos ministros e uma concentração de poder que, goste-se ou não, passou a alimentar desconfianças sobre a própria Corte. Agora, porém, aconteceu algo diferente.

A crise deixou de ser apenas uma discussão entre o Supremo e seus críticos e entrou na sala dos ministros. Convenhamos, quando um ministro do STF pede ao presidente da Corte que investigue outro ministro, enquanto o presidente determina que ambos prestem esclarecimentos sobre fatos relacionados a uma investigação da Polícia Federal, já não parece suficiente explicar tudo como efeito colateral da eleição.

O episódio Vorcaro

A divulgação de mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, foi o estopim mais recente. O material trouxe à tona comunicações entre Vorcaro e Alexandre de Moraes e reacendeu questionamentos sobre os contatos do empresário com autoridades. O caso ganhou dimensão ainda maior depois que o ministro André Mendonça retirou o sigilo de parte do material. A partir daí, a crise tomou uma direção inesperada.

Moraes encaminhou a Edson Fachin pedido para que fossem investigadas condutas atribuídas a Mendonça, apontando possíveis crimes de abuso de autoridade, improbidade e crime de responsabilidade. Fachin não ficou apenas olhando.

O presidente do Supremo determinou que Moraes, Mendonça, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da Polícia Federal prestem esclarecimentos sobre as circunstâncias relacionadas aos diálogos e à apuração. O prazo determinado foi de cinco dias.É difícil imaginar sinal mais evidente de que alguma coisa mudou dentro da Corte.

Não cabe na eleição

É claro que a proximidade das eleições transformou o episódio em munição política. Flávio Bolsonaro e seus aliados passaram a explorar a crise, enquanto setores ligados ao governo Lula também tentam administrar seus efeitos. Analistas já discutem como o desgaste do Supremo poderá atingir as campanhas presidenciais.

Mas há uma diferença fundamental entre dizer que a eleição politizou a crise e afirmar que a eleição criou a crise. São coisas completamente diferentes.

A eleição pode ter jogado gasolina sobre a fogueira. Não acendeu o fósforo. E talvez seja justamente aí que algumas das análises mais recentes da mídia nacional estejam perdendo o essencial.

O Supremo “se explica”

A situação ganhou mais uma camada nesta semana. Gilmar Mendes propôs a Fachin que delegados da Polícia Federal deixem de atuar nos gabinetes dos ministros do Supremo. Atualmente, há seis delegados cedidos à Corte, inclusive nos gabinetes de Moraes e Mendonça. A discussão ocorre justamente quando a relação entre ministros, PF e investigações passou a ser uma das áreas mais sensíveis da crise.

Também vieram a público referências ao procurador-geral Paulo Gonet em mensagens relacionadas a Vorcaro, provocando desconforto dentro da própria PGR e discussões sobre eventual afastamento por cautela em procedimentos ligados ao caso. Ou seja: a crise já não tem um único personagem. Ela envolve Supremo, Polícia Federal, Procuradoria-Geral da República e empresários investigados. E, sobretudo, começa a produzir uma pergunta institucional que é muito maior que Alexandre de Moraes: quem fiscaliza quem quando os próprios fiscais passam a fazer parte do problema a ser explicado?

O déjà vu

Há algo de familiar nessa história. O Brasil já assistiu a instituições que deveriam funcionar como árbitros no centro do jogo. Já viu poderes que deveriam se controlar mutuamente e estabelecerem relações tão estreitas que o público passou a ter dificuldade para distinguir cooperação institucional de proximidade excessiva.

Seria ingenuidade fingir que o Supremo não está pisando em terreno cada vez mais escorregadio. A prudência que durante muito tempo recomendou silêncio diante de episódios isolados agora precisa ser substituída por outra virtude republicana: a capacidade de perguntar – e perguntar não é condenar, investigar não é perseguir, cobrar explicações não é conspirar e transparência não deveria ser uma concessão de nenhuma instituição pública - muito menos da Suprema Corte.

Eleição vem depois

Talvez a história registre 2026 como o ano em que o conflito político contaminou definitivamente a relação entre o Supremo e a sociedade. Ou talvez registre algo mais incômodo: que a eleição apenas encontrou uma crise institucional que já estava madura.

Porque fatos não nascem em ano eleitoral. Eles apenas podem ser descobertos com mais barulho. E agora, enquanto Brasília discute quem ganha ou perde politicamente com o terremoto, há uma pergunta que permanece acima das campanhas, dos partidos e das torcidas: se está tudo dentro da normalidade, por que o próprio Supremo precisa abrir um procedimento para descobrir o que aconteceu?

Papo Reto

•A capacidade de articulação dos irmãos Alcântara volta a ganhar espaço na política paraense. Charles (foto), candidato a deputado federal pelo PT, tornou-se uma das vozes da militância contra decisões da direção estadual, especialmente a estratégia de Beto Faro de levar o PT para o palanque de Celso Sabino ao Senado.

•Charles teria sido procurado para ajudar a reorganizar o Democracia Cristã no Pará, presidido localmente por seus irmãos Alberto e Roberto. Depois de perder o comando estadual para aliados de Daniel Santos, a família Alcântara teria recorrido a Brasília - e recuperado o espaço. Política partidária também tem segunda instância.

•Moradores de condomínios reclamam que a Águas do Pará estaria cobrando até 80% do consumo de água como tarifa de esgoto, mesmo onde a rede ainda não tenha sido implantada. Se for isso mesmo, a conta parece salgada demais. Com a palavra o Ministério Público.

•Fiepa, Codec e a ACTECH avançaram nesta quinta-feira nas tratativas para uma possível fábrica de aluminas especiais no Distrito Industrial de Barcarena. A proposta é transformar aqui parte de uma riqueza que há décadas sai daqui. Se sair do papel, já será alguma coisa além de minério embarcado.

•Agentes da Segbel foram vistos - e aplaudidos - multando carretas estacionadas na ciclovia da Arthur Bernardes. A irregularidade é antiga e a coluna já cobrou providências. Agora é continuar: fiscalização episódica educa pouco. Choque no bolso, talvez.

•Sem maioria própria na Câmara nem no Senado, o governo Lula passou boa parte do mandato obrigado a construir cada votação no varejo. Na reta final, porém, o esforço concentrado rendeu uma sequência de aprovações importantes - da escala 6x1 aos minerais estratégicos, passando pela segurança pública e pela taxação das compras internacionais. 

•Entre concessões, negociações e alguma engenharia política, o Planalto termina a rodada fazendo barba, cabelo e bigode.

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.