A indisponibilidade de semicondutores impacta o mundo todo, mas no Brasil as montadoras vivem o dilema de forma mais aguda e prolongada.
A crise dos semicondutores atinge de frente as montadoras de veículos pelo mundo, inicialmente, porque os carros modernos dependem de 1.500 a 3.000 chips, que controlam desde itens essenciais como injeção eletrônica, freios ABS e airbags, até itens de conforto e entretenimento como ar-condicionado, telas multimídia, sistema de som e assistentes de direção.
Trata-se de uma cadeia global e complexa, já que as montadoras de veículos não produzem seus próprios chips, dependem de uma cadeia de fornecimento universal, extremamente complexa e concentrada principalmente na Ásia. Qualquer ruptura nessa cadeia (como o lockdowns pela covid-19, as secas em Taiwan, ou os incêndios em fábricas) atrapalha completamente a produção de veículos.
Quando a escassez começou, as montadoras cancelaram pedidos prevendo uma queda nas vendas devido à pandemia. No entanto, a demanda por eletrônicos de consumo - como notebooks e videogames -, explodiu e as fundições de chips priorizaram esses setores, que compram em volumes muito maiores e com margens de lucro mais altas. Quando a indústria automotiva tentou recomprar chips acabou no final da fila.
No Brasil, a consequência mais visível tem sido as constantes interrupções nas linhas de montagem. As fábricas têm parado por dias ou até semanas, mandando funcionários para o "layoff", porque não têm os componentes necessários para completar e entregar os veículos.
Com a produção intermitente, a oferta de carros novos despencou, criando longas listas de espera para modelos populares, com os consumidores chegando a esperar meses pela entrega do veículo.
E para conseguir manter a produção, as montadoras adotaram a estratégia de remover temporariamente itens dos carros como sistema de som multimídia ou navegador, carregador de celular sem fio, controle de velocidade cruzeiro adaptativo, chave presencial etc.
A solução foi prometer instalar os itens posteriormente, quando os chips estiverem disponíveis.
Um outro dilema no caso brasileiro é a implacável lei da oferta e procura: com poucos carros novos disponíveis, os preços acabam subindo tanto no mercado de 0 km quanto no mercado de seminovos e usados, que se tornam uma alternativa para quem não quer esperar.
Na realidade, as montadoras têm deixado de vender milhares de unidades, impactando diretamente na sua receita/lucratividade.
O caso do Brasil é mais crítico por conta de o País não possuir uma indústria significativa de fabricação de semicondutores avançados. Ou seja praticamente 100% dos chips são importados, tornando o Brasil extremamente vulnerável a crises globais e à volatilidade cambial, sem contar a distância dos principais centros produtores, que agregam custos logísticos e alfandegários adicionais e muitos atraso no reabastecimento.
Enquanto mercados como China, EUA e Europa começam a mostrar sinais de recuperação, o Brasil, por ser um mercado menor em escala global, muitas vezes tem sua demanda atendida depois.
Embora se espere uma normalização gradual até o final do ano, com a promessa do governo chinês de "socorrer" as montadoras brasileiras, a situação não deve voltar ao "normal" pré-pandemia tão cedo. Embora as montadoras estejam revendo suas estratégias, buscando ter um estoque maior de componentes críticos, firmar acordos diretos e de longo prazo com as fundições e desenhar peças que usem chips mais simples e disponíveis, a crise perdurará por mais algum tempo, sem data previsível para acabar.
Foto: Divulgação
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Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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